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a pedido das famílias, aqui ficam as fotos e novidades do X-kid e baby Y

sábado, 26 de maio de 2012

Nome do dia: Wagner

Nome do dia

Wagner

Wagner é um nome claramente germânico, alemão mesmo, que assenta como uma luva a um rapaz filho de emigrantes nascido no Luxemburgo. Wagner significa “carpinteiro de rodas”, profissão de ricos pergaminhos, com origem muito antiga, e à qual se deve em larguíssima medida o desenvolvimento da civilização. A roda é, sem dúvida, uma das mais importantes invenções tecnológicas e, não fora as gerações sucessivas de competentes carpinteiros de rodas, a humanidade certamente estaria bem mais atrasada do que está. É verdade que se trata de uma profissão hoje pouco praticada na sua forma original, mas podemos considerar que, por via da evolução que ela própria desencadeou e permitiu, os carpinteiros de rodas são os antecessores dos engenheiros mecânicos de hoje em dia. Assim sendo, só podemos augurar que o gaiato siga as pisadas do seu tio-avô Mané, e que, quem sabe, venha a ter uma carreira auspiciosa no ramo da indústria automóvel.



Significando, na origem, “carpinteiro de rodas”, Wagner é um espécime notável da respeitável classe dos nomes ocupacionais, isto é, nomes que representam profissões. Em português não há muitos, infelizmente. Além de Wagner, consegui identificar os seguintes: Jorge (que significa “lavrador”), Fabrício (“artesão” ou “operário”), Custódio (“guarda” ou, por extensão, “polícia”), Sérgio (“criado”). Conspicuamente ausentes desta lista de nomes ocupacionais estão nomes para as belas profissões de bombeiro, astronauta ou futebolista, que qualquer gaiato gostaria de ter, o que é uma pena e uma debilidade da nossa língua. Mesmo assim, sem preconceitos e recorrendo ao grego, nossa língua mãe para estas coisas, facilmente construímos belos nomes que outros pais poderão querer escolher para os seus rebentos: para bombeiro, Pirasfális (que defende do fogo); para astronauta, Astério (que vem das estrelas) e para futebolista, Filosfério (que gosta da bola).

Ao registarmos o gaiato no Luxemburgo estaremos a tornear a eventual resistência, ou mesmo intransigência, que provavelmente encontraríamos se tentássemos fazê-lo em Portugal, onde o conservador, se fosse conhecedor das regras do nosso belo idioma e também amante da cultura europeia, insistiria, com razão e algum fundamento, na grafia Vágner. De facto, a base IX do acordo ortográfico da língua portuguesa de 1990 (é de 1990, mas só estamos a aplicar agora) estabelece que as palavras paroxítonas não são em geral acentuadas graficamente, mas que recebem acento agudo “as palavras paroxítonas que apresentam na sílaba tónica as vogais abertas grafadas a, e, o e ainda i ou u e que terminam em -l, -n, -r, -x e -ps (…): (…) açúcar, almíscar, cadáver, caráter, ímpar (…)” Por outro lado, é verdade que a base I do acordo, que trata do alfabeto, refere explicitamente primeiro que o alfabeto português contém 26 letras, abcdefghijklmnopqrstuvwxyz, as quais têm “uma forma minúscula e outra maiúscula”, acrescentando que “além destas letras, usam-se o ç (cê cedilhado) e os seguintes dígrafos: rr (erre duplo), ss (esse duplo), ch (cê-agá), lh (ele-agá), nh (ene-agá), gu (guê-u) e qu (quê-u)”. Esta mesma base ensina que o nome da letra w, que será inicial do nosso gaiato, se chama “dáblio”. Além disso, indica que as letras k, w e y se usam em casos especiais, um dos quais nos interessa particularmente: “em antropónimos originários de outras línguas e seus derivados: Franklin, frankliniano; Kant, kantismo; Darwin, darwinismo; Wagner, wagneriano; Byron, byroniano; Taylor, taylorista;” Há aqui um conflito linguístico interessante: o antropónimo Wagner, sendo originário de outra língua, pode escrever-se com W, tal como na língua de origem. No entanto, se é aceite como palavra portuguesa, devia aplicar-se a regra da base IX e colocar um acento no a, acento esse que não existe no original alemão. Mas então, digo eu, o melhor seria aportuguesar completamente, por via popular, e, transformar o W original em V, obtendo Vágner. Não o faremos aqui, pois convém-nos manter o caráter germânico do nome, para facilitar a vida ao gaiato, na escola luxemburguesa, cujos professores certamente seriam insensíveis às normas da ortografia portuguesa e constantemente lhe baralhariam o nome.

Desta forma, o nome Wagner/Vágner fica associado, não só a lista dos nomes ocupacionais, como já vimos, mas também à dos antropónimos paroxítonos terminados em “er”, onde se junta a Áser (que significa feliz, de origem hebraica), Deméter (que ama a terra ou que é um seguidor da Demetra, deusa grega da agricultura, colega da deusa Diana, esta com o pelouro da caça no panteão romano e madrinha virtual da tia do gaiato), Éder (que significa bando ou manada, sabe-se lá porquê, de origem hebraica), Élmer (de nobre fama, de origem anglo-saxónica), Guálter (poderoso guerreiro, que também ficaria muito bem ao nosso gaiato, de origem teutónica), Hélder (luminoso, de origem polaca), Jáder (significado desconhecido), Vérter (soldado valoroso, de origem germânica), entre outros.

Que a variante Vágner é a mais consensual e a mais avançada, provam-nos os nossos irmãos brasileiros, que são mais cuidadosos com a língua que os próprios portugueses. Temos, por exemplo, o famoso futebolista brasileiro Vágner Loveatualmente no Flamengo, mas que os sportinguistas bem conhecem, de quando ele jogava no CSKA de Moscovo e veio a Alvalade ganhar ao Sporting na final da taça UEFA, em 2005, onde marcou o terceiro golo da equipa russa, golo que arrumou com as esperanças do Sporting e de milhões de portugueses na altura, diga-se, http://terceiroanel.weblog.com.pt/arquivo/2005/05/18/sporting_1_3_cska_moscovo.html.

Mas é claro que não será neste Vágner que o nosso gaiato se reverá (nem o gaiato, nem, muito menos, o pai dele…), mas sim no compositor alemão, Richard Wagner e nas suas belíssimas e grandiosas óperas. Sendo um compositor clássico, duas das obras de Wagner fazem parte da cultura popular, à escala mundial: a cavalgada das valquírias e a marcha nupcial. A primeira tornou-se ainda mais conhecida pela utilização que de dela foi feita no filme Apocalipse Now, http://www.imdb.pt/title/tt0078788/, na espetacular e medonha cena do ataque dos helicópteros: http://www.youtube.com/watch?v=Gz3Cc7wlfkI. A marcha nupcial sempre foi conhecida, acho eu: http://www.youtube.com/watch?v=vFTnFErJEu4. Para algo diferente e verdadeiramente entusiasmante, temos, por exemplo, a abertura dos mestres cantores de Nuremberga: http://www.youtube.com/watch?v=dOb2XsqYawk.

Ainda no setor musical, se bem que noutro género, temos Wagner Tiso, o qual, sendo brasileiro, é Wagner e não Vágner. Ei-lo ao piano, com orquestra, tocando uma peça de António Carlos Jobim que todos conhecemos, mas cujo título não refiro, para dar ao pai do gaiato a oportunidade de se exprimir nesta ocasião: http://www.youtube.com/watch?v=wsnPtZPDufA. E, já agora, esta outra pérola da música brasileira, choro de mãe, que vem tão a propósito, ainda que desejemos que poucas vezes faça o gaiato a mãe chorar, bem entendido: http://www.youtube.com/watch?v=5J_EmtxgBSI.

Um outro Wagner de algum mérito é o ator americano Robert Wagnernão pelas suas qualidades no grande ecrã, mas porque a ele associamos a Natalie Wood, a miúda mais gira de todos os tempos ou, melhor, pelo menos de quando eu era novo. O Robert, que era um galã, casou-se com ela primeiro em 1957, divorciou-se em 1962, e voltou a casar em 1972, o que só mostra que parvo não era. A Natalie Wood infelizmente morreu ainda muito nova, em 1981, ano em que nasceu a mãe do gaiato. Portanto, perdeu-se uma miúda gira, ganhou-se outra. Recordemo-la no filme West Side Story, onde fazia o papel de Maria (numa óbvia referência à avó materna do gaiato), cantando I feel prettyhttp://www.youtube.com/watch?v=Ye7PIyIcCro.

Se houvesse dúvidas de que o gaiato deve ser Wagner, com W, elas dissipar-se-iam pela simples observação de que se o filho vem a seguir à mãe, então a letra do filho deve vir a seguir à letra da mãe, caso contrário ninguém se entende! Teremos V seguido de W, como deve ser, o que imediatamente nos remete para o emblema da famosa marca de automóveis, também alemã, a Volkswagen.


Isto bate tudo certo, pois sabemos que a mãe e o pai do gaiato muito namoraram no Volkswagen carocha do avô paterno, antes de se mudarem para a Renault.

Wagner? Warum nicht?

Beijinhos

segunda-feira, 21 de maio de 2012

33 semanas

Enquanto esperavamos pelo V da Vera (e do Vicente) chegamos as 33 semanas. Ai que isto esta a passar muito depressa... O update das 32 semanas foi live in Portugal, por ocasiao do batizado da minha rica sobrinha e afilhada Amelia! (As fotos ficaram da responsabilidade da Catarina Andreia, faxavor de enviar para publicacao!). As 33 semanas foram muito produtivas para o nesting, gracas ao feriado na quinta-feira e a uma visita ao Ikea no Sabado, e assim a pouco e pouco o 'ninho' vai ficando mais completo e pronto para a chegada do gaiato (e das visitas que o vao querer vir conhecer em breve!).

Primeiro - a foto da barriga, claro:


Como esta semana tambem teve direito a ecografia, ficamos a saber que o miudo continua sentadinho de cabeca para cima, e a crescer a olhos vistos (agora nos 2.1kg, +/- 300g). Cada vez se mexe mais, agora parece mesmo que tenho um alien na barriga com tanto pontape e espreguicadela. Continuamos com fe que ele ainda se vai virar de cabeca para baixo (so para chatear o medico!) e eu ca ate acho que ele anda a praticar umas cambalhotas, porque de vez em quando vai experimentar a outra metade da barriga (mas depois volta para o lado direito).

Depois, a foto do quarto das visitas que estivemos a arrumar e decorar na quinta-feira. Filipa e Amelia, podem vir, ja tem cama feita e quadros nas paredes e tudo!


Finalmente, o registo das actividades do fim-de-semana. O Joao a trabalhar no duro (que eu ja nao ajudo muito com estas montagens de moveis do ikea) a construir a nossa nova cabeceira de cama! A foto da cama para provar que ficou tudo montado, e podem reparar no tapete - que tambem e novo, mas vai ter de voltar para a Belgica porque decidimos que era demasiado pequeno. Em cima da nossa comoda ja temos o colchaozinho muda-fraldas (com resguardo novo do Ikea) e uma grande animacao floral que ja nao me lembro se tinhamos publicado. E compramos um cadeirao grande que ha de servir para por ao lado do berco, mas por enquanto fica muito bem na nossa sala.


Depois deste trabalho todo, o ultimo 'to-do' deste fim-de-semana e ir marcar mais um fim-de-semana de passeio para ir descansar e aproveitar o feriado que ai vem (28 Maio).

Beijinhos e abracos,

Vera

domingo, 20 de maio de 2012

Nome do dia: Vicente

Nome do dia

Vicente

Vicente é um nome que começa com ‘V’. É verdade que o ‘V’ era, até agora, o ‘V’ da Vera, mas temos a certeza de que a mãe do gaiato terá muito gosto, e até muito orgulho, em partilhar a sua inicial com o rebento. Aliás, na prática, em  breve, o ‘V’ terá de deixar de ser o ‘V’ da Vera, sob pena de causar uma grande confusão ao gaiato, pois a letra da mãe tem de ser o ‘M’, e não o ‘V’. Sendo assim, para que o ‘V’ inicial se mantenha da família, o melhor mesmo é passá-lo para o gaiato.

Vicente provém diretamente do latim Vincentius, que significa vencedor e que deriva do verbo “vincere”, que significa “vencer”. Recordemos, a propósito, a famosa frase de Júlio César, “veni, vidi, vici”, depois de ter despachado rapidamente as tropas do rei Farnaces, na batalha de Zela (no norte da atual Turquia), em 49 antes de Cristo. Aliás, um outro nome que provém do mesmo verbo “vincere” é Vítor que é o nome de um dos bisavôs do gaiato, uma feliz coincidência.

Vicente é um nome vitorioso, o que calha bem, e a sua inicial, a letra ‘V’, é também um dos símbolos da vitória, que associamos a Winston Churchill, no fim da guerra:


No entanto, ao fazer o sinal ‘V’ com os dedos, temos de ter cuidado, pois o sentido é diferente em algumas culturas, consoante a palma da mão é virada para a frente ou para trás, http://en.wikipedia.org/wiki/V_sign. Os pais devem ensinar quanto antes estas subtis distinções ao gaiato, que será detentor desta inicial tão propensa a ser representada digitalmente.

Quando, há 50 anos eu ia ao futebol no estádio do Restelo, precisamente com o bisavô Vítor, distinguiam-se na equipa do Belenenses três jogadores, o Matateu e o Vicente, e o guarda-redes, José Pereira. Matateu e Vicente eram irmãos. Matateu, de seu verdadeiro nome Sebastião Lucas da Fonseca, é a maior glória do futebol do Belenenses, http://pt.wikipedia.org/wiki/Sebasti%C3%A3o_Lucas_da_Fonseca, e foi o primeiro jogador africano que se distinguiu em Portugal, antes de Eusébio. Matateu era avançado e seu irmão Vicente jogava a médio ou a defesa. Vicente Lucas, http://en.wikipedia.org/wiki/Vicente_Lucas, foi também um grande jogador e, sendo mais novo, entrou na famosa e mítica equipa dos magriços, a seleção nacional que ficou em terceiro lugar no campeonato do mundo de 1966, em Inglaterra. Ficou célebre, nesse campeonato, o Portugal-Brasil, em que ganhámos por 3-1, com dois golos de Eusébio, http://www.youtube.com/watch?v=eCtbJrALp3c, e também o Portugal-Coreia, em que ganhámos por 5-3, depois de estarmos a perder por 3-0 ao fim de 25 minutos, www.dailymotion.com/video/x26cxd_portugal-5-coreia-do-norte-3-de-196_sport. Vicente alinhou nesses dois jogos.

É verdade que Vicente não aparece em destaque nos resumos desses dois jogos, o que se compreende, pois ele era defesa. Mas que foi um grande defesa, prova-o fazer parte do All-Star team do mundial de 1966, juntamente com Coluna e Eusébio,http://en.wikipedia.org/wiki/FIFA_World_Cup_awards#All-Star_Team. Essa distinção só voltou a ser atribuída a jogadores portugueses em 2006, no campeonato da Alemanha, neste caso a Ricardo, Ricardo Carvalho, Figo e Maniche. Tenho a certeza de que a tia Di ficará particularmente orgulhosa de ter um sobrinho e um gato batizados com nomes de jogadores de tão alta craveira.

Uns séculos antes de Vicente Lucas, um outro Vicente tinha-se distinguido no mundo do entretenimento, agora não desportivo, mas sim teatral: Gil Vicente, o “pai” do teatro português: http://pt.wikipedia.org/wiki/Gil_Vicente. Curiosamente, o principal clube da cidade de Barcelos, cidade onde terá nascido Gil Vicente, é o Gil Vicente Futebol Clube, e, deste modo, o pai do teatro português é também, indiretamente, um precursor do futebol português. O emblema do Gil Vicente ostenta o famoso galo de Barcelos, que acaba por ser um símbolo não-oficial da nossa nacionalidade e que é muito querido especialmente da nossa comunidade emigrada, da qual o gaiato fará parte, em posição de muito destaque, é claro.


Ainda mais antigo do que Gil Vicente, tão antigo que é mesmo anterior à nacionalidade, temos São Vicente. Este é um santo um tanto misterioso, pois, sendo oficialmente o santo padroeiro da cidade de Lisboa, foi um pouco relegado para segundo plano devido à grande popularidade do seu colega mais recente, Fernando Martins de Bulhões, que usou o nome profissional de Santo António, e que se distinguiu, entre outras coisas igualmente notáveis, pela sua propensão para casar a malta toda. Na verdade, o percurso de São Vicente é bem menos prazenteiro do que o de Santo António. Nasceu para os lados de Saragoça e foi vítima das perseguições aos cristãos realizadas a mando do imperador Diocleciano. Cristão ferrenho, não obedeceu às ordens imperiais que mandavam fazer sacrifícios aos deuses pagãos, acabou preso e foi martirizado até à morte em 304 ou 305, não sem antes ter conseguido a milagrosa conversão do seu carrasco. O seu corpo foi sepultado e depois, com o triunfo do cristianismo, foi transladado para uma basílica perto de Valência. De acordo com uma lenda, durante a ocupação muçulmana, o corpo (o que restaria dele, presumo) foi colocado num barco, deixado à deriva. Ora o barco foi dar ao Algarve, à ponta de Sagres, mais precisamente, e as relíquias foram guardadas nesse local, que passou a chamar-se cabo de São Vicente. Durante a reconquista, D. Afonso Henriques achou que seria boa ideia trazer as relíquias do santo para Lisboa, para com isso marcar a cristianização definitiva da cidade,http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/medievalista4/medievalista-picoito.htm. Segundo a tradição, durante a viagem, dois corvos acompanharam o barco que trazia as relíquias. São esses os corvos que aparecem no brasão da cidade de Lisboa:


Em resumo, temos em Portugal três importantes Vicentes: São Vicente, Gil Vicente e Vicente Lucas. Em breve teremos um quarto, tudo indica.

À escala planetária, e, atrevo-me a dizer, à escala do universo, o mais notável Vicente é o van Gogh, http://en.wikipedia.org/wiki/Vincent_van_Gogh. Não precisa de palavras, bastam os seus quadros: http://www.googleartproject.com/collection/van-gogh-museum/.

Um dos mais bonitos tributos a Vincent van Gogh é a canção “Vincent” de Don McLean: http://www.youtube.com/watch?v=Gi_P8XwrSCU. O primeiro verso, “Starry, starry night”, é logo uma referência ao quadro Noite Estrelada:


Este Don McLean, que pode ser desconhecido dos mais novos, não é um tipo qualquer: é um importante autor e cantor americano, sobretudo conhecido pela canção American Pie, uma das canções mais famosas e mais intrigantes do século XX, http://understandingamericanpie.com/mclean.htm. Os mais novos identificarão a expressão American Pie com as típicas tortas de maçã americanas e também com aquela série de filmes sobre a adolescência, http://en.wikipedia.org/wiki/American_Pie_%28film%29, no primeiro dos quais há uma famosa cena que envolve uma tarte de maçã, mas não saberão que o título do filme é tirado do título da canção do McLean, o qual, por sua vez, remete para a tarte como símbolo da quinta-essência da cultura americana. A canção American Pie está em quinto lugar na lista americana das “canções do século”, http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_songs_considered_the_best#American_culture_and_heritage.

Não confundamos a canção Vincent com o filme Vincent, www.imdb.com/title/tt0084868/. Este é pequeno filme do Tim Burton (o mesmo de Batman, Eduardo Mãos-de-Tesoura, entre muitos outros), em stop motion, que conta história de um rapazinho chamado Vincent Malloy que sonha ser como Vincent Price, http://www.youtube.com/watch?v=vDp6PXI_1u8. Sim, Vincent Price, o prestigiado ator americano, que faz narração do filme com a sua voz inconfundível, e que entrou definitivamente para a cultura popular com o fantástico voiceover do Thriller do Michael Jackson, http://www.youtube.com/watch?v=dgDSXlXkJv4, “can you dig it? ah ah ah ah”. Tenho a certeza de que nosso gaiato adorará o filmezito, o riso maléfico do Vincent Price e, sobretudo, o Michael Jackson, cantando e dançando o Thriller,http://www.youtube.com/watch?v=jQ_ExkfcBao. O pai e a mãe podem já começar a preparar as máscaras para o carnaval, inspiradas nestes simpáticos bailarinos. Para outras coisas de arrepiar, temos o The Raven, do Edgar Allen Poe, lido pelo Vincent  Price, www.youtube.com/watch?v=27ZvwQd-wXw, poema esse que já encontrámos anteriormente. Para referência, aqui estão o original em inglês, http://www.heise.de/ix/raven/Literature/Lore/TheRaven.html, e a notável tradução do tio Fernando Pessoa, http://www2.dem.ist.utl.pt/~jsantos/Literature/O_Corvo.html. Isto fecha o nosso círculo, de maneira completamente premonitória: o Vicente Price, lendo o Corvo, que é o pássaro de Lisboa e de São Vicente.

Vicente: um nome convincente. Can you dig it?

Beijinhos

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Nome do dia: Ulisses

Nome do dia

Ulisses

Ulisses é o nome do mais astuto dos guerreiros da antiguidade. Foi ele que, por exemplo, teve a fantástica ideia do cavalo de Tróia, com o qual iludiu os sitiados troianos, assim acabando com a guerra que já durava há anos, tudo porque Páris, de visita a Esparta, se apaixonou pela bela Helena, esposa do rei Menelau, e levou-a. Menelau ficou piurso (como se compreende) e organizou um poderoso exército, cujo comando entregou ao seu irmão Agamémnon, para ir pedir contas ao pai de Páris, o rei Príamo, de Tróia. O cerco a Tróia durou dez anos e, se não fosse Ulisses, aposto que ainda hoje os gregos lá estavam, o que, diga-se, teria tido a vantagem de os manter alheados da atual crise financeira, entretidos que andariam a guerrear os troianos.

O invento de Ulisses ainda hoje é muito usado, sobretudo no mundo dos computadores. De facto, os cavalos de Tróia de hoje são uma espécie de vírus e não convém mesmo nada que os nossos computadores fiquem por eles infetados.

Para não haver equívocos ou mal-entendidos, tomemos desde já nota que sendo Ulisses grego, o nome Ulisses corresponde à variante latina. A variante original grega deu Odisseu em português, que também é um belo nome, sem dúvida, mas menos usado. É de Odisseu que vem o título do poema épico dos poemas épicos, A Odisseia, em que Homero relata as aventuras de Ulisses na viagem de regresso a casa, depois da guerra de Tróia. Esta odisseia de Ulisses não deve ser confundida com a odisseia de 2001, aquela que foi no espaço, onde pontificava o célebre computador HAL 9000, o tal que recusou a abrir as portas da cápsula espacial, quando o astronauta Bowman lhe pediu para o fazer, famosamente replicando “I’m sorry, Dave. I’m afraid I can’t do that.” Recordemos a cena: http://www.youtube.com/watch?v=kkyUMmNl4hk. Não convém mostrar o filme ao gaiato enquanto ele for novinho, não vá ele aprender a armar-se em mula com os pais, esquivando-se das ordens que eles lhe derem, usando a fórmula do HAL para com o Dave, substituindo Dave por Mom or Dad, consoante o caso.

O nome Ulisses/Odisseu tem um significado pouco simpático, mas justificável, atendendo ao contexto. Significa “aquele que está zangado”. Apresso-me a esclarecer que a zanga de Ulisses era contra os deuses, que lhe tornaram a vida tão difícil, e não contra a mãe como, por exemplo, no caso do nosso rei D. Afonso Henriques, ou contra o pai, como, por exemplo, no caso do nosso rei D. Pedro I. Portanto, estar zangado contra aqueles deuses impertinentes, que querem interferir em tudo, é uma reação que podemos considerar saudável. Comparativamente, as zangas daqueles dois reis portugueses com os seus progenitores tinham causas bem mais fúteis. Pior seria que os Ulisses, tanto o herói grego como o gaiato, se ficassem, impávidos e serenos, perante as injustiças de que são alvo ou perante as dificuldades que outros se divertem a colocar-lhes pela frente.

Os mais cinéfilos de entre nós poderiam pensar que papel de Ulisses na guerra de Tróia não terá sido muito importante, para além da brilhante ideia de construir o cavalo, pois no filme Tróia, de 2004, os atores principais eram o Brad Pitt, no papel de Aquiles, o Eric Bana, no de Heitor, e o Orlando Bloom, no de Páris. Os três aparecem em destaque no trailer, http://www.imdb.com/video/screenplay/vi3237937433/, mas ao Ulisses, nem vê-lo. Mesmo assim, o filme é interessante e representativo. Dele destaco esta pérola de sabedoria do rei Menelau, que também dominava muito bem a língua inglesa: “May the gods keep the wolves in the hills and the women in our beds!” A primeira parte, os pais do gaiato podem já ir-lhe explicando, até a propósito da história do capuchinho vermelho, mas talvez seja melhor deixar a segunda parte para daqui a mais uns anos.

Ulisses era o rei de Ítaca. Estamos a falar da ilha grega de Ítaca, http://www.greeka.com/ionian/ithaca/, onde, depois disto, tenciono ir passar em breve uma semana de férias, e não de Ithaca, NY, http://en.wikipedia.org/wiki/Ithaca,_New_York, cidade da famosa Cornell University, uma universidade da Ivy League, companheira portanto do Dartmouth College, onde a mãe do gaiato fez o seu MBA.



Ulisses era filho de Laertes e Anticleia. Esta circunstância feliz permite-nos rebatizar ficcionalmente os pais do gaiato, atribuindo-lhes estes bonitos nomes. Talvez nomes duplos: João Laertes e Vera Anticleia. Ficam ambos muito bem.

Aliás, como é do conhecimento público, Laertes era filho de Arcésio e de Calcomedusa, e sei que os meus compadres se reverão nestes personagens da mitologia grega, ou não fosse a minha comadre também Helena. Do lado materno, temos registo do avô de Ulisses, Autólico, que tenho a honra de representar nesta feliz ocasião, se bem que com algum embaraço, pois ao que consta Autólico era um famoso larápio, e da avó, Anfiteia, que, de acordo com a Odisseia, era muito chegada ao neto. Novamente com nomes duplos, obtemos José Arcésio, Helena Calcomedusa, Pedro Autólico e Maria Anfiteia. Só posso dizer que a família do nosso gaiato não fica a dever nada à da do grego, excetuando, bem entendido, aquele desagradável pormenor relacionado com a profissão de Autólico.

Ulisses casou-se com Penélope, em resultado de um complicado arranjo político relacionado com o casamento de Helena, filha de Tíndaro, rei de Esparta, que era giríssima e tinha muitos pretendentes, entre os quais Ulisses. As coisas iam dando para o torto entre os pretendentes que disputavam a mão de Helena, mas Ulisses, revelando desde cedo os seus dotes de bom negociador propôs a todos que entre eles jurassem defender aquele que Helena selecionasse, contra quem quer que o atacasse no futuro. O escolhido foi Menelau (como já sabemos) mas Ulisses não regressou de mãos a abanar, pois ficou com Penélope, filha de Icário, irmão de Tíndaro, e, portanto, prima direita de Helena.

Note-se que Helena sabia bem que Ulisses era muito esperto e talvez por isso tenha optado pelo mais previsível Menelau. Na célebre cena da Ilíada em que Helena passa em revista os pretendentes, ela responde assim a seu pai, quando este lhe pergunta quem é “este rapaz”:

Este é o filho de Laertes, Ulisses de mil ardis,
que foi criado na terra de Ítaca, áspera embora seja,
conhecedor de toda a espécie de dolos e planos ardilosos.


Ulisses e Penélope viviam muito felizes no seu palácio em Ítaca. Pouco depois de casar (isto é, estilo um ano depois, que não estou a ver Icário permitir atrevimentos ao ardiloso futuro genro…) nasceu Telémaco. A vida corria às mil maravilhas para o casalinho, mas, eis senão quando, a tal jura foi posta à prova: o galã Páris, príncipe de Tróia, raptou a bela Helena e os ex-pretendentes tiverem de se reunir para defender a honra do seu colega Menelau e aplicar o devido corretivo a Páris e à sua família. E lá foram todos cercar Tróia. Aquilo esteve animadíssimo, durante 10 anos, e muitas das batalhas foram vencidas pelos gregos usando truques inventados por Ulisses. O mais famoso desses truques foi o cavalo de Tróia, mercê do qual os gregos conseguiram finalmente entrar em Tróia e partir aquilo tudo. A devastação foi tal, que ficámos sem saber se Tróia existiu mesmo ou foi só uma criação literária de Homero.



Se Ulisses não foi o protagonista da guerra de Tróia, já que esse papel coube a Aquiles/Brad Pitt, pese embora dever-se a ela a resolução do conflito, foi o personagem principal da saga seguinte, a do regresso a casa. De facto, a guerra de Tróia durou 10 anos e nós pensaríamos que Ulisses, ao resolver a questão, rumaria saudoso de volta ao lar, onde Penélope o esperaria e o seu filho Telémaco já seria um homenzinho, a necessitar da presença do pai. No entanto, a viagem de Tróia até Ítaca incompreensivelmente demorou outros 10 anos. Ora a Grécia não é assim tão grande, e mesmo que na época as auto-estradas não fossem o que são hoje e a Ryanair ainda não tivesse sido inventada, é difícil justificar tal demora. Dá ideia que Ulisses não tinha pressa e que aproveitou para ficar a conhecer as zonas mais retrógradas do seu país, qual easyrider da antiguidade, http://www.imdb.com/title/tt0064276/.

A primeira paragem de Ulisses foi na terra dos lotófagos, isto é, dos que comem a flor de lótus, planta que hoje seria considerada um droga leve, pois quem a comesse ficava um bocado passado e esquecia-se do tempo e do espaço. A seguir teve um encontro violento com o ciclope Polifemo, filho de Posídon, deus do mar. Ulisses conseguiu safar-se e salvar os seus homens, depois de cegar Polifemo, com um espeto de madeira. Mas a tranquilidade não durou muito, pois passados uns dias chegou à terra dos Lestrigões. Os Lestrigões eram uma tribo de canibais gigantes e comeram quase todos os companheiros de Ulisses, o que foi muito desagradável. Além disso destruíram onze dos doze navios da frota, apedrejando-os com rochas enormes atiradas de cima dos recifes. Só o navio de Ulisses escapou, porque Ulisses, sempre astuto, o tinha escondido numa gruta.

Ultrapassados com relativo êxito estes obstáculos, Ulisses teve um caso amoroso com a deusa Circe, de que ainda hoje se fala em toda a Grécia. Naturalmente, a doce Penélope nunca soube de nada. Seguiu-se o episódio das sereias, às quais Ulisses conseguiu resistir, mas por pouco. Guiado pelas instruções de Circe, Ulisses viajou até ao fim do mundo para consultar o profeta Tirésias. Não foi fácil, pois Cila, o monstro de múltiplas cabeças dizimou a tripulação, só escapando Ulisses. Aventuras de perder o fôlego seguiram-se umas às outras, até que Ulisses foi capturado pela bela ninfa Calipso, que completamente apaixonada por ele, o prendeu na sua ilha, a ilha de Ogígia, durante sete anos. A este episódio dedica Camões dois versos, no canto segundo dos Lusíadas: “Que, se o facundo Ulisses escapou/De ser na Ogígia ilha eterno escravo”. Finalmente, Ulisses conseguiu fugir, com a ajuda da deusa Atena, que de entre os deuses do Olimpo era quem mais o apoiava, e mediante a intervenção de Zeus, o deus dos deuses. Ansioso por voltar a casa e à família, Ulisses fez-se de novo ao mar, mas Posídon, furioso porque Ulisses havia cegado o seu filho Polifemo, provocou uma tempestade tremenda que destruiu o navio de Ulisses. Felizmente, Atena velava por ele, e ajudou-o a chegar a Esquéria, terra dos marinheiros feácios, cuja princesa, Nausica, entusiasmada pelo relato das aventuras de Ulisses, lhe ofereceu um novo navio com o qual finalmente Ulisses conseguiu chegar a Ítaca e reunir-se com a família, não sem antes matar sem piedade uma série de coitados que sem êxito cortejavam Penélope, presumindo inocentemente que Ulisses não voltaria.

Para além das sucessivas aventuras de cortar a respiração, a história da viagem de Ulisses é curiosamente contraditória: por um lado, ele quer voltar para casa, por outro, parece não ter pressa. O perigo e o mistério seduzem-no, como no episódio das sereias ou no affaire com a deusa Circe. A viagem de Ulisses é, afinal, a viagem de um homem em busca do seu sonho, e representa a nossa inesgotável sede de conhecimento, a nossa necessidade de encontrar a verdade, de descobrir o mundo, até cumprirmos o nosso destino.

O significado da viagem de Ulisses é admiravelmente retratado no belo poema “Ítaca”, do poeta grego Constantino Cavafy (1863-1933), que traduzi diretamente do grego para português (“no joke”):

Agora que partes de regresso a Ítaca,
Pede que a viagem seja longa,
Cheia de aventuras, cheia de descobertas.
Lestrigões e Ciclopes,
E o furioso Posídon—não os receies:
Nunca encontrarás tais obstáculos no teu caminho
Enquanto elevados forem os teus pensamentos,
Enquanto uma emoção rara
Animar o teu espírito e o teu corpo.
Lestrigões e Ciclopes,
E o feroz Posídon—não os encontrarás,
A não ser que os tragas na tua alma,
A não ser que a tua alma os coloque à tua frente.

Pede que a tua viagem seja longa.
Que, em muitas gloriosas manhãs de verão,
Com tanto gozo, com tanta alegria,
Possas entrar em portos nunca vistos.
Que possas deter-te em mercados fenícios
Para comprar belas mercadorias,
Madre pérolas e corais, âmbares e ébanos,
Perfumes sensuais de todas as qualidades;
E que possas visitar muitas cidades egípcias
Para com os seus sábios tudo aprender.

Lembra-te de Ítaca a cada momento.
Voltar para lá é o teu destino.
Mas não apresses a viagem.
Será melhor que dure muitos anos,
Para que já sejas velho quando chegares à ilha,
Com as fortunas que juntaste ao longo do teu caminho,
E sem esperares que seja Ítaca a fazer de ti um homem rico.

Ítaca deu-te a admirável viagem.
Sem Ítaca, não terias partido.
Ítaca já não tem mais nada para te dar.

E se a achares pobre, Ítaca não te terá enganado.
Sábio como agora és, com a experiência que ganhaste,
Terás compreendido o que essas Ítacas significam.


Não consta na Odisseia, certamente por lapso de Homero, mas quando Ulisses andava pelo fim do mundo, navegou até ao Tejo e, achando o local bonito e o clima aprazível, fundou a cidade de Lisboa, chamando-lhe Ulisipo ou Ulisseia, o que não deixa de ser fascinante, pois sendo Ulisses grego, usava o nome Odisseu e não Ulisses e, portanto, a nossa capital deveria ter-se chamado Odisseia ou Odissipólis, qualquer coisa assim, mas não Ulisipo, convenhamos.

O lapso de Homero foi corrigido por Camões, seu discípulo, que refere o episódio da criação de Lisboa no canto terceiro:

E tu, nobre Lisboa, que no mundo
Facilmente das outras és princesa,
Que edificada foste do facundo,
Por cujo engano foi Dardânia acesa.


O facundo (eloquente, bem falante) é Ulisses e o último verso refere-se precisamente à conquista de Tróia (Dardânia, pois fica perto do estreito de Dardanelos), a qual foi incendiada (acesa). Tróia não foi incendiada por engano, claro, mas os troianos foram enganados com o truque do cavalo, imaginado pelo facundo.

Mais à frente, no canto oitavo, Camões volta ao tema, agora explicitamente identificando o facundo:

Ulisses é o que faz a santa casa
À Deusa, que lhe dá língua facunda;
Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,
Cá na Europa Lisboa ingente funda.

Também o tio Fernando Pessoa recorda a fundação de Lisboa por Ulisses, na Mensagem, num poema que se chama precisamente Ulisses:

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.


Este que aqui aportou e nos criou é Ulisses, claro.

Estas intervenções dos dois mais representativos poetas portugueses demonstram, sem margem para dúvidas, que Ulisses, sendo um herói grego e universal, é também, por via da fundação de Lisboa, um herói eminentemente português. Tenho a certeza de que os nossos amigos gregos se orgulharão de o partilhar connosco.

Ulisses: um astuto e facundo guerreiro na antiguidade, um astuto e facundo Guerreiro na atualidade!

Beijinhos

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Nome do dia: Tristão

Nome do dia

Tristão

Esclareçamos já, para evitar mal entendidos, que Tristão não quer dizer “muito triste” ou “grande pessoa triste”. Aliás, originalmente não tem nada a ver com tristeza. Trata-se de um nome de origem celta, derivado do bretão Drust ou Dustranus, que significa não tristeza mas sim barulho. Não que desejemos que o gaiato seja ruidoso, não senhor! Mas desejamos que seja um gaiato alegre, e se a alegria for barulhenta, daí não virá grande mal ao mundo. E chamando-se Tristão, está implicitamente desculpado.

Tristão é o nome de um dos cavaleiros da távola redonda do rei Artur. Para referência, eis a lista dos cavaleiros (não será exaustiva, pois há várias teorias sobre o assunto), onde encontramos, junto com Tristão, uma plêiade de outros nomes fantásticos: Agravain, Bagdemagus, Bedivere, Bors, Breunor, Calogrenant, Caradoc, Dagonet, Dinadan, Elyan o Branco, Gaheris, Galaaz, Gareth, Gauvain, Geraint, Griflet, Hector de Maris, Kay, Lamorak, Lancelote, Leodegrance, Lionel, Lucan, Meleagant, Marhaus, Palamedes, Pelleas, Pelinore, Percival, Safir, Sagramore, Segwarides, Tor , Tristão, Uriens, Yvain, Yvain o Bastardo. Gosto particularmente no Marhaus, e agora entendo melhor o que a minha mãe queria dizer quando me dizia para não ser marau.



Os cavaleiros da távola redonda tinham um código de honra, com sete pontos: busca da perfeição humana; retidão nas ações; respeito pelos semelhantes; amor pelos familiares; piedade com os enfermos; doçura com as crianças e mulheres; justiça e valentia na guerra e lealdade na paz. De certeza que o nosso Tristão, talvez não sendo propriamente cavaleiro, será sem dúvida cavalheiro, fazendo também seu este código que recebe do homónimo medieval.

O Tristão da távola redonda é o mesmo da lenda de Tristão e Isolda. No entanto, esta trágica história de amor é bem anterior à história do rei Artur. Na lenda, Tristão é sobrinho do rei da Cornualha, Marcos, e vai à Irlanda buscar a bela princesa Isolda (ou Iseu, nos antigos textos portugueses) para se casar com o rei. Só que, durante a viagem, por acidente, ambos bebem a poção mágica do amor, a qual deveria sim ser tomada por Marcos e Isolda. Está-se a ver o que aconteceu: Tristão e Isolda apaixonaram-se um pelo outro, loucamente e irremediavelmente. Mesmo assim, Isolda casa-se com Marcos, mas continua a encontrar-se furtivamente com Tristão. Claro que quando se soube disto foi um grande escândalo e Tristão foi mandado para a Bretanha. Não percebo bem esta parte, pois a Bretanha não fica muito longe da Cornualha; fica mesmo ali do outro lado do canal. Foi imprudência de Marcos, que devia era tê-lo mandado para a Austrália. Tristão, homem prático, arranjou outra Isolda, a Isolda das mãos brancas, princesa da Bretanha, com quem se casa, e a quem, continuando a gostar da Isolda original, não corre o risco de trocar o nome. A vida continua, com muitas peripécias, e às tantas Tristão é ferido mortalmente numa batalha. Na emergência, aflito, pede que mandem buscar Isolda para o curar. A Isolda amada, não a mulher, entenda-se. Só que a mulher, despeitada, fá-lo acreditar que a outra não vem. Tristão, desolado, morre, e a sua Isolda (não a mulher, a outra) ao chegar, vê-o morto e morre de tristeza.

A história de Tristão e Iseu chegou a Portugal muito cedo. O rei D. Dinis, que, como sabemos, era poeta e perseguia as donzelas pelos corredores dos seus castelos, seduzindo-as com as suas poesias (enquanto a rainha santa se entretinha a transformar pães em rosas), escreveu a seguinte cantiga de amor na tentativa de seduzir alguma moçoila, não havendo, infelizmente, registo sobre se foi bem sucedido. No entanto, aqui fica, pois pode ser útil ao nosso Tristão, daqui por uns anos:

Quero-vos eu tal bem
Qual maior posso
e o mui namorado Tristan sei bem que non amou Iseu
quant' eu vos amo, esto certo sey eu
.

D. Dinis não foi o único que se inspirou em Tristão e Isolda.  Mais recentemente, tivemos Richard Wagner, com a sua ópera Tristão e Isolda. Eis o prelúdio, que até dá arrepios: http://www.youtube.com/watch?v=fktwPGCR7Yw. Para ouvirmos as vozes do Tristão e da Isolda, temos este outro trecho, e, mesmo não entendendo a letra, dá para perceber que o romance está complicado: http://www.youtube.com/watch?v=w7eIxmUndVo.

Para conhecer a história num suporte mais ligeiro, temos o filme Tristão e Isolda, de 2006, que, mesmo produzido pelo Ridley Scott, e com o James Franco no papel de Tristão e a Sophia Myles no de Isolda, não foi propriamente um grande êxito. Mesmo assim, deve ser interessante, para ver num sábado à noite, que mais não seja, pelo retrato daquela época menos conhecida da história europeia, a baixa idade média, também conhecida como a idade das trevas (“dark ages” em inglês). Watch the trailer.http://www.imdb.com/video/screenplay/vi3741253913/. Faço minhas as palavras do narrador: “I want him to grow old in a land where all of us are at peace”.

Portanto, Tristão é um nome inquestionável, entranhadíssimo na cultura europeia, como poucos outros nomes. No entanto, sei bem que de Tristão se pode dizer que tem til e que isso prejudicará a trajetória internacional no gaiato. Nada mais errado!

Para começar, os tiles estão na família: o pai tem til, o avô materno tem til, o bisavô materno materno tem til, uma tia-avó materna tem til, um primo tem til. Depois, o til é um elemento distintivo da nossa língua: além do português, apenas o vietnamita o usa. Note-se que a letra ñ, que conhecemos em espanhol, não é um ene com til, é um enhe. Quer dizer ñ é uma letra única, com entrada própria no dicionário, e não uma letra com uma marca diacrítica. Finalmente, o til é um sinal gráfico com um pedigree impressionante.

Na verdade, quem inventou o til foram os gregos. Socorro-me aqui de novo dos peritos que me assessoram nas intrincadas questões relativas ao grego antigo, que temos de entender para perceber quem somos e o que fazemos. No grego mesmo antigo não havia acentos e eles eram muito felizes assim. Na altura, o grego era uma língua politónica, em que cada sílaba de uma palavra podia ser pronunciada num tom (no sentido da escala musical) diferente. Duas palavras formadas pela mesma sequência de sílabas podiam ter significados diferentes consoante o tom com que essas sílabas eram pronunciadas. É isso que acontece também em chinês e japonês, por exemplo. Com o passar dos séculos, a língua tornou-se, dizem os gregos, mais “dinâmica”, substituindo o acento tonal (melódico) pelo acento tónico (de intensidade). O acento tónico conhecemos nós bem! Aliás, temos na nossa língua vários casos em que a mesma sequência de sílabas tem significados diferentes consoante a sílaba tónica, isto é, a sílaba que tem o acento tónico. O mais famoso desses casos é o das palavras “cágado” e “cagado". Por sinal, este exemplo foi usado para contrariar a ideia de abolir os acentos gráficos nas palavras esdrúxulas, que chegou a aflorar a propósito da recente reforma ortográfica. Bem entendido que o argumento se baseia numa confusão, de que o acento tónico tem de ser assinalado por um acento gráfico, o que não corresponde à verdade, como sabemos.

Ora bem, os nossos amigos gregos dos séculos III e II antes de Cristo, com a mudança da maneira de falar, viram-se gregos para ler os textos antigos, que só usavam maiúsculas e que não separavam as palavras umas das outras. Foi então que, em Alexandria, Aristófanes de Bizâncio, num rasgo de inspiração e de criatividade, inventou os acentos gráficos, assim facilitando a vida aos seus patrícios e, de passagem, a meia humanidade no futuro. Aristófanes inventou o acento agudo, para marcar a vogal tónica; o acento grave para marcar as vogais das sílabas não tónicas; o til, para marcar o acento tónico numa vogal longa ou num ditongo. Bem visto, Aristófanes!

Na verdade, o acento grave deixou de ser usado sobre todas as vogais não tónicas e hoje apenas aparece em casos especiais. Em português também.

Portanto, o til, tal como nós o conhecemos, é um sinal da nossa herança helenística, de que tanto nos orgulhamos. Sendo o português a única língua europeia que o mantém, devemos envidar todos os esforços para o defender e para o promover. Nesse sentido, devíamos desde já encetar uma campanha para a revisão do novo acordo ortográfico, em prol da introdução do til sobre as vogais que ainda não o usam, a saber o ‘e’, o ‘i’ e ‘u’, para assinalar as nasalação da última sílaba nas palavras agudas. Por exemplo, em vez de “quem”, passaremos a escrever “quẽ”; em vez de “sim”, “sĩ”; em vez de “um”, “ũ”; etc. Havendo muitas palavras nestas condições, com o recurso ao til conseguiremos efetivamente encurtar os nosso textos, com isso poupando papel (quando os imprimimos), assim contribuindo para a ultrapassagem da crise.

Em Portugal, modernamente, Tristão não é um nome muito comum. No entanto, temos dois famosos navegadores Tristões, Tristão da Cunha e Nuno Tristão, sinal evidente de que o nome já conheceu melhores dias.

Tristão da Cunha entrou em cena já depois de descoberto o caminho marítimo para a Índia e coube-lhe comandar uma frota de navios de carga com destino precisamente à Índia, em 1506. De caminho, descobriu umas ilhas remotas no Atlântico sul. Nem sequer desembarcou, mas batizou a ilha principal com o seu nome. Nunca lá morou ninguém até 1810, ano em que um maduro se instalou na ilha, esperando fazer fortuna com a venda de óleo de leão-marinho. Atualmente, a ilha é território britânico e moram lá cerca de 80 famílias, com ao todo aproximadamente 300 pessoas. É considerado o local habitado mais remoto do mundo.




Foi também Tristão da Cunha que chefiou a famosa embaixada que o rei D. Manuel enviou ao papa Leão X, carregada de presentes sumptuosos, e que incluía um elefante albino, dois leopardos, uma pantera, alguns papagaios, perus raros e cavalos indianos.

Mas Tristão da Cunha é sobretudo conhecido através da rua que tem o seu nome e que atravessa o bairro do Restelo, em toda a sua extensão, desde a avenida da Torre de Belém até à rua dos Soldados da Índia, cruzando as ruas pares e as ruas ímpares e separando as casas de baixo (números das portas de 1 a 15 nos ímpares e 2 a 16 nos pares) das de cima (números 17 a 31 nos ímpares e 18 a 32 nos pares). Era na borda do passeio dessa rua que se disputava a volta a Portugal em carica. Também havia o salto em comprimento, a ver quem conseguia pular a rua de um lado ao outro, tomando balanço ao correr pela transversal, com os amigos a avisarem que não vinham carros. Igualmente emocionantes eram os famosos torneios de futebol de sarjeta a sarjeta. Em todas essas atividades se distinguiram o avô materno e o tio-avô materno do gaiato, que, enquanto gaiatos, moravam numa das ruas que a Tristão da Cunha cruza. Os jogos de futebol mesmo a sério eram numa rua paralela à Tristão da Cunha, com mais condições para a prática da modalidade.




Nuno Tristão é menos conhecido mas talvez mais interessante. Entrou na epopeia dos descobrimentos mais cedo, pela mão do Infante D. Henrique. De facto, em 1441, o Infante encarregou Nuno Tristão de explorar a costa ocidental de África, a sul do cabo Branco. Nas palavras de Azurara, Nuno Tristão foi “o primeiro fidalgo que viu terra de negros”! Na verdade, Nuno Tristão, terá chegado uns anos depois ao território da atual Guiné-Bissau, deixando definitivamente para trás as costas desérticas e semi-desérticas da Mauritânia e do Senegal, atingindo as zonas férteis, cobertas de palmeiras e de outra vegetação, com uma população de pele negra. Portanto, quando ouvimos nos livros de história aquela lenga-lenga dos quinhentos anos em África, pois bem, esses quinhentos anos começaram a contar com Nuno Tristão.

Uma das ruas transversais à rua Tristão da Cunha é a rua Nuno Tristão. Por sinal, é nessa rua que mora a tia Didá.

Regressando ao setor ficcional, mas agora à escala doméstica, temos o Tristão da novela Espírito Indomável, que emparelha não com a Isolda mas com a Susana, certamente por lapso do argumentista. Os dois vivem uma escaldante história de amor, que rivaliza com a medieval e que manteve grudados à tvi milhões de portugueses durante meses a fio. Pedro Lima era Tristão e Sara Prata era Susana. Uma dupla inesquecível: http://www.youtube.com/watch?v=j9m6ryyUmHk.

Tristão: um nome alegre, ruidoso, operático mesmo, sobre o qual esvoaça um orgulhoso til, e que assenta perfeitamente ao nosso gaiato.

domingo, 6 de maio de 2012

Updates Barriguisticos

Aiiiii que ja recebemos muitas reclamacoes de falta de updates do status da barriga... Portanto, comecemos pelo mais importante: as fotos da crianca 'in belly':


Fica a progressao que assim ate e mais giro! A primeira foto mostra as 30 semanas, que comemoramos com uma ida a Lyon visitar a Marie, o Richard e o Jude. Chegamos la no Sabado e fomos muito bem recebidos pela familia da Marie que preparou um rico almocinho, a francesa, com saucisse e fromage e tudo e tudo! Depois passamos a tarde a passear e a comer gelados para aproveitar que estava calor! 



No Domingo esperamos que passasse a chuva de manha e fomos ate Fourviere, ver a catedral e a vista la de cima, que era bem bonita. Voltamos a tarde, uma viagem de 5 horinhas, mas que ate se fez muito bem, com direito a parar para comer gelados na area de servico (ate parecia Verao!) e fomos diretos ao restaurante Lisboa 2 no Luxemburgo jantar um rico arroz de marisco para fechar o fim-de-semana com chave de ouro! (e inda bem que tivemos um feriado na terca feira depois para recuperar disto tudo!)



E esta sexta-feira entramos nas 31 semanas, o que de acordo com o babycenter quer dizer que o Sebastiao ja deve medir os seus 40 cms! Esta semana tambem marcou o inicio do nosso curso de Hypnobirthing, e como tal agora passamos as noites a ouvir o nosso novo cd de relaxamento e self-hypnosis o que e um bocadinho esquisito, mas como ja dizia a Maya: nao negues a partida uma ciencia que desconheces. E aprender a respirar fundo tambem nunca fez mal a ninguem!

E este fim-de-semana marcou tambem o nosso primeiro dia da mae com o gaiato no horizonte! Ele nao desapontou e foi a Laduree comprar uns macarrons muiti xiques que nos vao saber muito bem ao almoco. 


E feliz dia da Mae tambem as Avos Lenita e Manel - mais uma semaninha e podemos dar os beijinhos todos em pessoa :-)

Beijinhos e abracos!

sábado, 5 de maio de 2012

Nome do dia: Sebastião

Nome do dia

Sebastião

Trata-se de um nome muito distinto, facilmente reconhecível: Sebastião em português, Sébastien em francês, Sebastián em espanhol, Sebastian em inglês. O inconveniente que representa o til no ditongo nasal é minorado pela presença dos acentos em francês e em espanhol. Quer dizer, podemos considerar que a existência de sinais diacríticos neste belo nome é uma tendência internacional, e que a versão portuguesa se limita a seguir essa tendência.

Sentimos imediatamente que é um nome que impõe respeito. Não admira, pois provém do grego “sevastos”, que significa precisamente “respeitável”, “venerando”, “ilustre”. Não é isto que nós desejamos para o gaiato?

Explicam-me os peritos gregos que geralmente consulto a propósito destas difíceis matérias que a palavra “sevastos” deriva do grego antigo “sevas”, que significa respeito, honra, e a terminação “atos” que exprime a ideia de “digno de”. Encontramos a mesma construção no nome da bela cidade ucraniana de Sebastopol, que corresponde o grego “sevasti polis”, significando “cidade honrada”.

O mais universalmente ilustre dos Sebastiões (até o gaiato crescer e disputar o lugar, é claro) é o João Sebastião Ribeiro, mais conhecido pelo seu nome em alemão, Johann Sebastian Bach, um dos maiores compositores de todos os tempos.


Uma das suas obras mais icónicas é a Tocata e Fuga em ré menor para órgão: http://www.youtube.com/watch?v=ATbMw6X3T40. Tenho a certeza de que o gaiato, ainda no berço, há de gostar muito desta fantástica peça, especialmente quando estiver de barriga cheia, depois de mamar. Para o ajudar a adormecer, recomendo estoutra, aqui na versão chillout, com saxofone:http://www.youtube.com/watch?v=0zpaPX_5hwo.

A presença de Bach na vida familiar do gaiato há de ser uma constante, e não só depois de mamar ou para o pôr a dormir. Quando a mãe quiser chamar para a mesa pai e filho, entretidos a ver um jogo do Sporting na SIC internacional, gritará: “João, Sebastião!”, assim trazendo à colação também o compositor.

No mundo musical, existe um outro João Sebastião relativamente famoso, se bem que eu suspeite que os pais do gaiato não o conheçam: estou a referir-me a John Sebastian o líder dos Lovin’ Spoonful, uma influente banda americana dos anos 60. Lembro-me dos Lovin’ Spoonful especialmente através do seu maior êxito, Summer in the City, uma canção rock fantástica. Oiçam: http://www.youtube.com/watch?v=s1_8909dNJ0. A versão do Joe Cocker também é muito boa: http://www.youtube.com/watch?v=6Hxz6qJi-9k.  

Em Portugal, o mais ilustre Sebastião é o Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal. O Marquês de Pombal foi o primeiro-ministro do rei D. José, desde 1750 até 1777, ano em que o rei morreu. A sua herança mais evidente para quem é de Lisboa, como os pais do gaiato, é a obra de reconstrução da cidade após o terramoto de 1755. Foi provavelmente ele que aprovou o projeto do prédio onde hoje mora a tia Di, e talvez devamos censurar-lhe ter-se esquecido de prever espaço para pelo menos um elevador. Descontando esse pequeno lapso, o Marquês de Pombal modernizou, com mão de ferro, Portugal, e também o Brasil. Em Portugal, além da reconstrução de Lisboa, instituiu a região demarcada dos vinhos do porto, aboliu a escravatura, reorganizou o exército e a marinha, reestruturou a Universidade de Coimbra, acabou com a discriminação dos cristãos-novos, fundou no Algarve Vila Real de Santo António, diminuiu o poder da Igreja, subordinando ao estado o tribunal do santo ofício, assim efetivamente desmantelando a inquisição. De passagem, expulsou os jesuítas da metrópole e das colónias (e com isso extinguiu a Universidade de Évora, que lhes pertencia) e limpou o sebo aos Távoras, acusados de um atentado contra a vida do rei.

Eis o famoso quadro que representa o Marquês de Pombal a fazer aquilo de que mais gostava: expulsar os jesuítas:


Quase duzentos anos antes de Carvalho e Melo, outro Sebastião ilustre quase deu cabo do país: o rei D. Sebastião, que em 1578 embarcou para o norte de África levando no seu exército a nata da nobreza portuguesa, arrastando a nação para o desastre de Alcácer Quibir. Em Lagos, de onde partiu a armada portuguesa para a fatal expedição, encontramos a célebre estátua de D. Sebastião, da autoria de João Cutileiro, que tão bem retrata o desvario, a imprudência e a megalomania do rei. 


Atualmente, o Sebastião mais popular em Portugal é o Sebastião dos Morangos com Açúcar, interpretado pelo jovem e promissor ator João Maria. Não, não se trata do pai do gaiato, que este anda ocupado a vender telemóveis no Luxemburgo, mas a coincidência é de assinalar, http://www.destak.pt/artigo/109359.

Menos popular do que o anterior, mas mesmo assim muito estimado, tivemos Sebastião da Gama, um poeta menor, mas não um pequeno poeta, também professor, cuja obra se encontra ligada à serra da Arrábida. Fundou em 1948 a Liga para a Proteção da Natureza, a mais antiga organização nacional de defesa do ambiente, como reação à destruição da mata do solitário, na serra da Árrábida, em resultado do “progresso”. A mata sobreviveu, como se pode constatar por meio desta interessante reportagem da RTP:http://tv1.rtp.pt/noticias/index.php?article=209355&tm=8&layout=122&visual=61.

Dos poemas de Sebastião da Gama, selecionei o seguinte “pequeno poema”, que vem muito a propósito, e que sei o gaiato decorará logo que aprenda a falar, para recitar à sua mãe no dia da mãe, que por coincidência acontece este ano precisamente à entrada no oitavo mês.

Pequeno poema


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...

Somente,
esquecida das dores,
a minha mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém... 

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha mãe...


Sebastião da Gama é recordado especialmente em Setúbal, onde a Escola Industrial e Comercial em que o avô materno do gaiato se iniciou nas lides educativas vai para quase quarenta anos se chama agora Escola Secundária Sebastião da Gama,http://pf2000.essg.pt/. Aliás, curiosamente, o Liceu de Oeiras onde o mesmo andou durante os sete anos da praxe chama-se agora Escola Secundária Sebastião e Silva, http://www.esss.edu.pt/, neste caso em homenagem ao matemático José Sebastião e Silva,http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p22.html.

Num capítulo completamente diferente temos São Sebastião. São Sebastião é um dos santos mártires mais “populares”, sem ser um santo popular (no sentido em que o são os seus colegas António, João e Pedro), venerado por católicos e ortodoxos. Ele terá sido vítima das perseguições que o imperador Diocleciano fazia aos cristãos. Aparece frequentemente representado amarrado a um poste com várias flechas trespassando o corpo. 




No entanto, é bom saber que essas flechas não lhe causaram a morte. Ele foi salvo por uma senhora, Irene de Milão, mas depois voltou dizer mal do imperador e então é que foi espancado brutalmente, a mando do imperador, que presumivelmente se fartou da impertinência do santo (que na altura ainda não tinha esse estatuto, bem entendido) e foi em consequência disso que morreu.

Em Lisboa, temos a freguesia de São Sebastião da Pedreira, a freguesia mais importante do país, que, graças à Maternidade Alfredo da Gosta, a qual está instalada no território da freguesia, é a naturalidade de mais de quatrocentos mil portugueses, número aproximado. É só fazer as contas: nascem para cima de 5000 bebés por anos na maternidade; a maternidade foi fundada há 80 anos; estou a admitir o que o número de partos se manteve à volta de 5000 desde o início, o que não pude confirmar… A esses quatrocentos mil há que acrescentar mais alguns, a saber, os que nasceram no Hospital Particular, ali perto, na avenida Luís Bívar, entre os quais se conta a mãe do gaiato, que não há de deixar de aproveitar esta oportunidade para afirmar, também ela, a sua naturalidade, agora mais valiosa ainda, dado estar a viver noutro país. Isto é tanto mais importante quanto é verdade que atualmente a freguesia corre o risco de desaparecer, por causa da dinâmica causada pelo projeto de diminuição do número de freguesias, sendo aglutinada com outras numa nova freguesia de “Avenidas Novas”, o que, convenhamos, é um nome bem velho e muito menos evocativo que o do santo. Acresce que São Sebastião é o único santo homem com direito a estação de metro, em Lisboa, juntamente com Santa Apolónia, no setor feminino:


São Sebastião é estação terminal da linha vermelha, a qual passa nas Olaias e em breve chegará ao aeroporto, no outro extremo. Desta forma, o gaiato, logo que chegar no voo do Luxemburgo, apanhará o metro na linha para São Sebastião e em dez minutos estará em casa da avó materna, deliciando-se com a tarte de morangos que ela terá à sua espera.

Note-se que se São Sebastião é o único santo com direito a estação de metro, não é o único Sebastião com essa prerrogativa, pois o Marquês de Pombal também tem uma estação. Esta dupla circunstância metropolitana é um indicador seguro da importância de se chamar Sebastião.

Sebastião: um nome ilustre para um ilustre gaiato!

Beijinhos