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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Nome do dia: Ulisses

Nome do dia

Ulisses

Ulisses é o nome do mais astuto dos guerreiros da antiguidade. Foi ele que, por exemplo, teve a fantástica ideia do cavalo de Tróia, com o qual iludiu os sitiados troianos, assim acabando com a guerra que já durava há anos, tudo porque Páris, de visita a Esparta, se apaixonou pela bela Helena, esposa do rei Menelau, e levou-a. Menelau ficou piurso (como se compreende) e organizou um poderoso exército, cujo comando entregou ao seu irmão Agamémnon, para ir pedir contas ao pai de Páris, o rei Príamo, de Tróia. O cerco a Tróia durou dez anos e, se não fosse Ulisses, aposto que ainda hoje os gregos lá estavam, o que, diga-se, teria tido a vantagem de os manter alheados da atual crise financeira, entretidos que andariam a guerrear os troianos.

O invento de Ulisses ainda hoje é muito usado, sobretudo no mundo dos computadores. De facto, os cavalos de Tróia de hoje são uma espécie de vírus e não convém mesmo nada que os nossos computadores fiquem por eles infetados.

Para não haver equívocos ou mal-entendidos, tomemos desde já nota que sendo Ulisses grego, o nome Ulisses corresponde à variante latina. A variante original grega deu Odisseu em português, que também é um belo nome, sem dúvida, mas menos usado. É de Odisseu que vem o título do poema épico dos poemas épicos, A Odisseia, em que Homero relata as aventuras de Ulisses na viagem de regresso a casa, depois da guerra de Tróia. Esta odisseia de Ulisses não deve ser confundida com a odisseia de 2001, aquela que foi no espaço, onde pontificava o célebre computador HAL 9000, o tal que recusou a abrir as portas da cápsula espacial, quando o astronauta Bowman lhe pediu para o fazer, famosamente replicando “I’m sorry, Dave. I’m afraid I can’t do that.” Recordemos a cena: http://www.youtube.com/watch?v=kkyUMmNl4hk. Não convém mostrar o filme ao gaiato enquanto ele for novinho, não vá ele aprender a armar-se em mula com os pais, esquivando-se das ordens que eles lhe derem, usando a fórmula do HAL para com o Dave, substituindo Dave por Mom or Dad, consoante o caso.

O nome Ulisses/Odisseu tem um significado pouco simpático, mas justificável, atendendo ao contexto. Significa “aquele que está zangado”. Apresso-me a esclarecer que a zanga de Ulisses era contra os deuses, que lhe tornaram a vida tão difícil, e não contra a mãe como, por exemplo, no caso do nosso rei D. Afonso Henriques, ou contra o pai, como, por exemplo, no caso do nosso rei D. Pedro I. Portanto, estar zangado contra aqueles deuses impertinentes, que querem interferir em tudo, é uma reação que podemos considerar saudável. Comparativamente, as zangas daqueles dois reis portugueses com os seus progenitores tinham causas bem mais fúteis. Pior seria que os Ulisses, tanto o herói grego como o gaiato, se ficassem, impávidos e serenos, perante as injustiças de que são alvo ou perante as dificuldades que outros se divertem a colocar-lhes pela frente.

Os mais cinéfilos de entre nós poderiam pensar que papel de Ulisses na guerra de Tróia não terá sido muito importante, para além da brilhante ideia de construir o cavalo, pois no filme Tróia, de 2004, os atores principais eram o Brad Pitt, no papel de Aquiles, o Eric Bana, no de Heitor, e o Orlando Bloom, no de Páris. Os três aparecem em destaque no trailer, http://www.imdb.com/video/screenplay/vi3237937433/, mas ao Ulisses, nem vê-lo. Mesmo assim, o filme é interessante e representativo. Dele destaco esta pérola de sabedoria do rei Menelau, que também dominava muito bem a língua inglesa: “May the gods keep the wolves in the hills and the women in our beds!” A primeira parte, os pais do gaiato podem já ir-lhe explicando, até a propósito da história do capuchinho vermelho, mas talvez seja melhor deixar a segunda parte para daqui a mais uns anos.

Ulisses era o rei de Ítaca. Estamos a falar da ilha grega de Ítaca, http://www.greeka.com/ionian/ithaca/, onde, depois disto, tenciono ir passar em breve uma semana de férias, e não de Ithaca, NY, http://en.wikipedia.org/wiki/Ithaca,_New_York, cidade da famosa Cornell University, uma universidade da Ivy League, companheira portanto do Dartmouth College, onde a mãe do gaiato fez o seu MBA.



Ulisses era filho de Laertes e Anticleia. Esta circunstância feliz permite-nos rebatizar ficcionalmente os pais do gaiato, atribuindo-lhes estes bonitos nomes. Talvez nomes duplos: João Laertes e Vera Anticleia. Ficam ambos muito bem.

Aliás, como é do conhecimento público, Laertes era filho de Arcésio e de Calcomedusa, e sei que os meus compadres se reverão nestes personagens da mitologia grega, ou não fosse a minha comadre também Helena. Do lado materno, temos registo do avô de Ulisses, Autólico, que tenho a honra de representar nesta feliz ocasião, se bem que com algum embaraço, pois ao que consta Autólico era um famoso larápio, e da avó, Anfiteia, que, de acordo com a Odisseia, era muito chegada ao neto. Novamente com nomes duplos, obtemos José Arcésio, Helena Calcomedusa, Pedro Autólico e Maria Anfiteia. Só posso dizer que a família do nosso gaiato não fica a dever nada à da do grego, excetuando, bem entendido, aquele desagradável pormenor relacionado com a profissão de Autólico.

Ulisses casou-se com Penélope, em resultado de um complicado arranjo político relacionado com o casamento de Helena, filha de Tíndaro, rei de Esparta, que era giríssima e tinha muitos pretendentes, entre os quais Ulisses. As coisas iam dando para o torto entre os pretendentes que disputavam a mão de Helena, mas Ulisses, revelando desde cedo os seus dotes de bom negociador propôs a todos que entre eles jurassem defender aquele que Helena selecionasse, contra quem quer que o atacasse no futuro. O escolhido foi Menelau (como já sabemos) mas Ulisses não regressou de mãos a abanar, pois ficou com Penélope, filha de Icário, irmão de Tíndaro, e, portanto, prima direita de Helena.

Note-se que Helena sabia bem que Ulisses era muito esperto e talvez por isso tenha optado pelo mais previsível Menelau. Na célebre cena da Ilíada em que Helena passa em revista os pretendentes, ela responde assim a seu pai, quando este lhe pergunta quem é “este rapaz”:

Este é o filho de Laertes, Ulisses de mil ardis,
que foi criado na terra de Ítaca, áspera embora seja,
conhecedor de toda a espécie de dolos e planos ardilosos.


Ulisses e Penélope viviam muito felizes no seu palácio em Ítaca. Pouco depois de casar (isto é, estilo um ano depois, que não estou a ver Icário permitir atrevimentos ao ardiloso futuro genro…) nasceu Telémaco. A vida corria às mil maravilhas para o casalinho, mas, eis senão quando, a tal jura foi posta à prova: o galã Páris, príncipe de Tróia, raptou a bela Helena e os ex-pretendentes tiverem de se reunir para defender a honra do seu colega Menelau e aplicar o devido corretivo a Páris e à sua família. E lá foram todos cercar Tróia. Aquilo esteve animadíssimo, durante 10 anos, e muitas das batalhas foram vencidas pelos gregos usando truques inventados por Ulisses. O mais famoso desses truques foi o cavalo de Tróia, mercê do qual os gregos conseguiram finalmente entrar em Tróia e partir aquilo tudo. A devastação foi tal, que ficámos sem saber se Tróia existiu mesmo ou foi só uma criação literária de Homero.



Se Ulisses não foi o protagonista da guerra de Tróia, já que esse papel coube a Aquiles/Brad Pitt, pese embora dever-se a ela a resolução do conflito, foi o personagem principal da saga seguinte, a do regresso a casa. De facto, a guerra de Tróia durou 10 anos e nós pensaríamos que Ulisses, ao resolver a questão, rumaria saudoso de volta ao lar, onde Penélope o esperaria e o seu filho Telémaco já seria um homenzinho, a necessitar da presença do pai. No entanto, a viagem de Tróia até Ítaca incompreensivelmente demorou outros 10 anos. Ora a Grécia não é assim tão grande, e mesmo que na época as auto-estradas não fossem o que são hoje e a Ryanair ainda não tivesse sido inventada, é difícil justificar tal demora. Dá ideia que Ulisses não tinha pressa e que aproveitou para ficar a conhecer as zonas mais retrógradas do seu país, qual easyrider da antiguidade, http://www.imdb.com/title/tt0064276/.

A primeira paragem de Ulisses foi na terra dos lotófagos, isto é, dos que comem a flor de lótus, planta que hoje seria considerada um droga leve, pois quem a comesse ficava um bocado passado e esquecia-se do tempo e do espaço. A seguir teve um encontro violento com o ciclope Polifemo, filho de Posídon, deus do mar. Ulisses conseguiu safar-se e salvar os seus homens, depois de cegar Polifemo, com um espeto de madeira. Mas a tranquilidade não durou muito, pois passados uns dias chegou à terra dos Lestrigões. Os Lestrigões eram uma tribo de canibais gigantes e comeram quase todos os companheiros de Ulisses, o que foi muito desagradável. Além disso destruíram onze dos doze navios da frota, apedrejando-os com rochas enormes atiradas de cima dos recifes. Só o navio de Ulisses escapou, porque Ulisses, sempre astuto, o tinha escondido numa gruta.

Ultrapassados com relativo êxito estes obstáculos, Ulisses teve um caso amoroso com a deusa Circe, de que ainda hoje se fala em toda a Grécia. Naturalmente, a doce Penélope nunca soube de nada. Seguiu-se o episódio das sereias, às quais Ulisses conseguiu resistir, mas por pouco. Guiado pelas instruções de Circe, Ulisses viajou até ao fim do mundo para consultar o profeta Tirésias. Não foi fácil, pois Cila, o monstro de múltiplas cabeças dizimou a tripulação, só escapando Ulisses. Aventuras de perder o fôlego seguiram-se umas às outras, até que Ulisses foi capturado pela bela ninfa Calipso, que completamente apaixonada por ele, o prendeu na sua ilha, a ilha de Ogígia, durante sete anos. A este episódio dedica Camões dois versos, no canto segundo dos Lusíadas: “Que, se o facundo Ulisses escapou/De ser na Ogígia ilha eterno escravo”. Finalmente, Ulisses conseguiu fugir, com a ajuda da deusa Atena, que de entre os deuses do Olimpo era quem mais o apoiava, e mediante a intervenção de Zeus, o deus dos deuses. Ansioso por voltar a casa e à família, Ulisses fez-se de novo ao mar, mas Posídon, furioso porque Ulisses havia cegado o seu filho Polifemo, provocou uma tempestade tremenda que destruiu o navio de Ulisses. Felizmente, Atena velava por ele, e ajudou-o a chegar a Esquéria, terra dos marinheiros feácios, cuja princesa, Nausica, entusiasmada pelo relato das aventuras de Ulisses, lhe ofereceu um novo navio com o qual finalmente Ulisses conseguiu chegar a Ítaca e reunir-se com a família, não sem antes matar sem piedade uma série de coitados que sem êxito cortejavam Penélope, presumindo inocentemente que Ulisses não voltaria.

Para além das sucessivas aventuras de cortar a respiração, a história da viagem de Ulisses é curiosamente contraditória: por um lado, ele quer voltar para casa, por outro, parece não ter pressa. O perigo e o mistério seduzem-no, como no episódio das sereias ou no affaire com a deusa Circe. A viagem de Ulisses é, afinal, a viagem de um homem em busca do seu sonho, e representa a nossa inesgotável sede de conhecimento, a nossa necessidade de encontrar a verdade, de descobrir o mundo, até cumprirmos o nosso destino.

O significado da viagem de Ulisses é admiravelmente retratado no belo poema “Ítaca”, do poeta grego Constantino Cavafy (1863-1933), que traduzi diretamente do grego para português (“no joke”):

Agora que partes de regresso a Ítaca,
Pede que a viagem seja longa,
Cheia de aventuras, cheia de descobertas.
Lestrigões e Ciclopes,
E o furioso Posídon—não os receies:
Nunca encontrarás tais obstáculos no teu caminho
Enquanto elevados forem os teus pensamentos,
Enquanto uma emoção rara
Animar o teu espírito e o teu corpo.
Lestrigões e Ciclopes,
E o feroz Posídon—não os encontrarás,
A não ser que os tragas na tua alma,
A não ser que a tua alma os coloque à tua frente.

Pede que a tua viagem seja longa.
Que, em muitas gloriosas manhãs de verão,
Com tanto gozo, com tanta alegria,
Possas entrar em portos nunca vistos.
Que possas deter-te em mercados fenícios
Para comprar belas mercadorias,
Madre pérolas e corais, âmbares e ébanos,
Perfumes sensuais de todas as qualidades;
E que possas visitar muitas cidades egípcias
Para com os seus sábios tudo aprender.

Lembra-te de Ítaca a cada momento.
Voltar para lá é o teu destino.
Mas não apresses a viagem.
Será melhor que dure muitos anos,
Para que já sejas velho quando chegares à ilha,
Com as fortunas que juntaste ao longo do teu caminho,
E sem esperares que seja Ítaca a fazer de ti um homem rico.

Ítaca deu-te a admirável viagem.
Sem Ítaca, não terias partido.
Ítaca já não tem mais nada para te dar.

E se a achares pobre, Ítaca não te terá enganado.
Sábio como agora és, com a experiência que ganhaste,
Terás compreendido o que essas Ítacas significam.


Não consta na Odisseia, certamente por lapso de Homero, mas quando Ulisses andava pelo fim do mundo, navegou até ao Tejo e, achando o local bonito e o clima aprazível, fundou a cidade de Lisboa, chamando-lhe Ulisipo ou Ulisseia, o que não deixa de ser fascinante, pois sendo Ulisses grego, usava o nome Odisseu e não Ulisses e, portanto, a nossa capital deveria ter-se chamado Odisseia ou Odissipólis, qualquer coisa assim, mas não Ulisipo, convenhamos.

O lapso de Homero foi corrigido por Camões, seu discípulo, que refere o episódio da criação de Lisboa no canto terceiro:

E tu, nobre Lisboa, que no mundo
Facilmente das outras és princesa,
Que edificada foste do facundo,
Por cujo engano foi Dardânia acesa.


O facundo (eloquente, bem falante) é Ulisses e o último verso refere-se precisamente à conquista de Tróia (Dardânia, pois fica perto do estreito de Dardanelos), a qual foi incendiada (acesa). Tróia não foi incendiada por engano, claro, mas os troianos foram enganados com o truque do cavalo, imaginado pelo facundo.

Mais à frente, no canto oitavo, Camões volta ao tema, agora explicitamente identificando o facundo:

Ulisses é o que faz a santa casa
À Deusa, que lhe dá língua facunda;
Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,
Cá na Europa Lisboa ingente funda.

Também o tio Fernando Pessoa recorda a fundação de Lisboa por Ulisses, na Mensagem, num poema que se chama precisamente Ulisses:

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.


Este que aqui aportou e nos criou é Ulisses, claro.

Estas intervenções dos dois mais representativos poetas portugueses demonstram, sem margem para dúvidas, que Ulisses, sendo um herói grego e universal, é também, por via da fundação de Lisboa, um herói eminentemente português. Tenho a certeza de que os nossos amigos gregos se orgulharão de o partilhar connosco.

Ulisses: um astuto e facundo guerreiro na antiguidade, um astuto e facundo Guerreiro na atualidade!

Beijinhos

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Nome do dia: Tristão

Nome do dia

Tristão

Esclareçamos já, para evitar mal entendidos, que Tristão não quer dizer “muito triste” ou “grande pessoa triste”. Aliás, originalmente não tem nada a ver com tristeza. Trata-se de um nome de origem celta, derivado do bretão Drust ou Dustranus, que significa não tristeza mas sim barulho. Não que desejemos que o gaiato seja ruidoso, não senhor! Mas desejamos que seja um gaiato alegre, e se a alegria for barulhenta, daí não virá grande mal ao mundo. E chamando-se Tristão, está implicitamente desculpado.

Tristão é o nome de um dos cavaleiros da távola redonda do rei Artur. Para referência, eis a lista dos cavaleiros (não será exaustiva, pois há várias teorias sobre o assunto), onde encontramos, junto com Tristão, uma plêiade de outros nomes fantásticos: Agravain, Bagdemagus, Bedivere, Bors, Breunor, Calogrenant, Caradoc, Dagonet, Dinadan, Elyan o Branco, Gaheris, Galaaz, Gareth, Gauvain, Geraint, Griflet, Hector de Maris, Kay, Lamorak, Lancelote, Leodegrance, Lionel, Lucan, Meleagant, Marhaus, Palamedes, Pelleas, Pelinore, Percival, Safir, Sagramore, Segwarides, Tor , Tristão, Uriens, Yvain, Yvain o Bastardo. Gosto particularmente no Marhaus, e agora entendo melhor o que a minha mãe queria dizer quando me dizia para não ser marau.



Os cavaleiros da távola redonda tinham um código de honra, com sete pontos: busca da perfeição humana; retidão nas ações; respeito pelos semelhantes; amor pelos familiares; piedade com os enfermos; doçura com as crianças e mulheres; justiça e valentia na guerra e lealdade na paz. De certeza que o nosso Tristão, talvez não sendo propriamente cavaleiro, será sem dúvida cavalheiro, fazendo também seu este código que recebe do homónimo medieval.

O Tristão da távola redonda é o mesmo da lenda de Tristão e Isolda. No entanto, esta trágica história de amor é bem anterior à história do rei Artur. Na lenda, Tristão é sobrinho do rei da Cornualha, Marcos, e vai à Irlanda buscar a bela princesa Isolda (ou Iseu, nos antigos textos portugueses) para se casar com o rei. Só que, durante a viagem, por acidente, ambos bebem a poção mágica do amor, a qual deveria sim ser tomada por Marcos e Isolda. Está-se a ver o que aconteceu: Tristão e Isolda apaixonaram-se um pelo outro, loucamente e irremediavelmente. Mesmo assim, Isolda casa-se com Marcos, mas continua a encontrar-se furtivamente com Tristão. Claro que quando se soube disto foi um grande escândalo e Tristão foi mandado para a Bretanha. Não percebo bem esta parte, pois a Bretanha não fica muito longe da Cornualha; fica mesmo ali do outro lado do canal. Foi imprudência de Marcos, que devia era tê-lo mandado para a Austrália. Tristão, homem prático, arranjou outra Isolda, a Isolda das mãos brancas, princesa da Bretanha, com quem se casa, e a quem, continuando a gostar da Isolda original, não corre o risco de trocar o nome. A vida continua, com muitas peripécias, e às tantas Tristão é ferido mortalmente numa batalha. Na emergência, aflito, pede que mandem buscar Isolda para o curar. A Isolda amada, não a mulher, entenda-se. Só que a mulher, despeitada, fá-lo acreditar que a outra não vem. Tristão, desolado, morre, e a sua Isolda (não a mulher, a outra) ao chegar, vê-o morto e morre de tristeza.

A história de Tristão e Iseu chegou a Portugal muito cedo. O rei D. Dinis, que, como sabemos, era poeta e perseguia as donzelas pelos corredores dos seus castelos, seduzindo-as com as suas poesias (enquanto a rainha santa se entretinha a transformar pães em rosas), escreveu a seguinte cantiga de amor na tentativa de seduzir alguma moçoila, não havendo, infelizmente, registo sobre se foi bem sucedido. No entanto, aqui fica, pois pode ser útil ao nosso Tristão, daqui por uns anos:

Quero-vos eu tal bem
Qual maior posso
e o mui namorado Tristan sei bem que non amou Iseu
quant' eu vos amo, esto certo sey eu
.

D. Dinis não foi o único que se inspirou em Tristão e Isolda.  Mais recentemente, tivemos Richard Wagner, com a sua ópera Tristão e Isolda. Eis o prelúdio, que até dá arrepios: http://www.youtube.com/watch?v=fktwPGCR7Yw. Para ouvirmos as vozes do Tristão e da Isolda, temos este outro trecho, e, mesmo não entendendo a letra, dá para perceber que o romance está complicado: http://www.youtube.com/watch?v=w7eIxmUndVo.

Para conhecer a história num suporte mais ligeiro, temos o filme Tristão e Isolda, de 2006, que, mesmo produzido pelo Ridley Scott, e com o James Franco no papel de Tristão e a Sophia Myles no de Isolda, não foi propriamente um grande êxito. Mesmo assim, deve ser interessante, para ver num sábado à noite, que mais não seja, pelo retrato daquela época menos conhecida da história europeia, a baixa idade média, também conhecida como a idade das trevas (“dark ages” em inglês). Watch the trailer.http://www.imdb.com/video/screenplay/vi3741253913/. Faço minhas as palavras do narrador: “I want him to grow old in a land where all of us are at peace”.

Portanto, Tristão é um nome inquestionável, entranhadíssimo na cultura europeia, como poucos outros nomes. No entanto, sei bem que de Tristão se pode dizer que tem til e que isso prejudicará a trajetória internacional no gaiato. Nada mais errado!

Para começar, os tiles estão na família: o pai tem til, o avô materno tem til, o bisavô materno materno tem til, uma tia-avó materna tem til, um primo tem til. Depois, o til é um elemento distintivo da nossa língua: além do português, apenas o vietnamita o usa. Note-se que a letra ñ, que conhecemos em espanhol, não é um ene com til, é um enhe. Quer dizer ñ é uma letra única, com entrada própria no dicionário, e não uma letra com uma marca diacrítica. Finalmente, o til é um sinal gráfico com um pedigree impressionante.

Na verdade, quem inventou o til foram os gregos. Socorro-me aqui de novo dos peritos que me assessoram nas intrincadas questões relativas ao grego antigo, que temos de entender para perceber quem somos e o que fazemos. No grego mesmo antigo não havia acentos e eles eram muito felizes assim. Na altura, o grego era uma língua politónica, em que cada sílaba de uma palavra podia ser pronunciada num tom (no sentido da escala musical) diferente. Duas palavras formadas pela mesma sequência de sílabas podiam ter significados diferentes consoante o tom com que essas sílabas eram pronunciadas. É isso que acontece também em chinês e japonês, por exemplo. Com o passar dos séculos, a língua tornou-se, dizem os gregos, mais “dinâmica”, substituindo o acento tonal (melódico) pelo acento tónico (de intensidade). O acento tónico conhecemos nós bem! Aliás, temos na nossa língua vários casos em que a mesma sequência de sílabas tem significados diferentes consoante a sílaba tónica, isto é, a sílaba que tem o acento tónico. O mais famoso desses casos é o das palavras “cágado” e “cagado". Por sinal, este exemplo foi usado para contrariar a ideia de abolir os acentos gráficos nas palavras esdrúxulas, que chegou a aflorar a propósito da recente reforma ortográfica. Bem entendido que o argumento se baseia numa confusão, de que o acento tónico tem de ser assinalado por um acento gráfico, o que não corresponde à verdade, como sabemos.

Ora bem, os nossos amigos gregos dos séculos III e II antes de Cristo, com a mudança da maneira de falar, viram-se gregos para ler os textos antigos, que só usavam maiúsculas e que não separavam as palavras umas das outras. Foi então que, em Alexandria, Aristófanes de Bizâncio, num rasgo de inspiração e de criatividade, inventou os acentos gráficos, assim facilitando a vida aos seus patrícios e, de passagem, a meia humanidade no futuro. Aristófanes inventou o acento agudo, para marcar a vogal tónica; o acento grave para marcar as vogais das sílabas não tónicas; o til, para marcar o acento tónico numa vogal longa ou num ditongo. Bem visto, Aristófanes!

Na verdade, o acento grave deixou de ser usado sobre todas as vogais não tónicas e hoje apenas aparece em casos especiais. Em português também.

Portanto, o til, tal como nós o conhecemos, é um sinal da nossa herança helenística, de que tanto nos orgulhamos. Sendo o português a única língua europeia que o mantém, devemos envidar todos os esforços para o defender e para o promover. Nesse sentido, devíamos desde já encetar uma campanha para a revisão do novo acordo ortográfico, em prol da introdução do til sobre as vogais que ainda não o usam, a saber o ‘e’, o ‘i’ e ‘u’, para assinalar as nasalação da última sílaba nas palavras agudas. Por exemplo, em vez de “quem”, passaremos a escrever “quẽ”; em vez de “sim”, “sĩ”; em vez de “um”, “ũ”; etc. Havendo muitas palavras nestas condições, com o recurso ao til conseguiremos efetivamente encurtar os nosso textos, com isso poupando papel (quando os imprimimos), assim contribuindo para a ultrapassagem da crise.

Em Portugal, modernamente, Tristão não é um nome muito comum. No entanto, temos dois famosos navegadores Tristões, Tristão da Cunha e Nuno Tristão, sinal evidente de que o nome já conheceu melhores dias.

Tristão da Cunha entrou em cena já depois de descoberto o caminho marítimo para a Índia e coube-lhe comandar uma frota de navios de carga com destino precisamente à Índia, em 1506. De caminho, descobriu umas ilhas remotas no Atlântico sul. Nem sequer desembarcou, mas batizou a ilha principal com o seu nome. Nunca lá morou ninguém até 1810, ano em que um maduro se instalou na ilha, esperando fazer fortuna com a venda de óleo de leão-marinho. Atualmente, a ilha é território britânico e moram lá cerca de 80 famílias, com ao todo aproximadamente 300 pessoas. É considerado o local habitado mais remoto do mundo.




Foi também Tristão da Cunha que chefiou a famosa embaixada que o rei D. Manuel enviou ao papa Leão X, carregada de presentes sumptuosos, e que incluía um elefante albino, dois leopardos, uma pantera, alguns papagaios, perus raros e cavalos indianos.

Mas Tristão da Cunha é sobretudo conhecido através da rua que tem o seu nome e que atravessa o bairro do Restelo, em toda a sua extensão, desde a avenida da Torre de Belém até à rua dos Soldados da Índia, cruzando as ruas pares e as ruas ímpares e separando as casas de baixo (números das portas de 1 a 15 nos ímpares e 2 a 16 nos pares) das de cima (números 17 a 31 nos ímpares e 18 a 32 nos pares). Era na borda do passeio dessa rua que se disputava a volta a Portugal em carica. Também havia o salto em comprimento, a ver quem conseguia pular a rua de um lado ao outro, tomando balanço ao correr pela transversal, com os amigos a avisarem que não vinham carros. Igualmente emocionantes eram os famosos torneios de futebol de sarjeta a sarjeta. Em todas essas atividades se distinguiram o avô materno e o tio-avô materno do gaiato, que, enquanto gaiatos, moravam numa das ruas que a Tristão da Cunha cruza. Os jogos de futebol mesmo a sério eram numa rua paralela à Tristão da Cunha, com mais condições para a prática da modalidade.




Nuno Tristão é menos conhecido mas talvez mais interessante. Entrou na epopeia dos descobrimentos mais cedo, pela mão do Infante D. Henrique. De facto, em 1441, o Infante encarregou Nuno Tristão de explorar a costa ocidental de África, a sul do cabo Branco. Nas palavras de Azurara, Nuno Tristão foi “o primeiro fidalgo que viu terra de negros”! Na verdade, Nuno Tristão, terá chegado uns anos depois ao território da atual Guiné-Bissau, deixando definitivamente para trás as costas desérticas e semi-desérticas da Mauritânia e do Senegal, atingindo as zonas férteis, cobertas de palmeiras e de outra vegetação, com uma população de pele negra. Portanto, quando ouvimos nos livros de história aquela lenga-lenga dos quinhentos anos em África, pois bem, esses quinhentos anos começaram a contar com Nuno Tristão.

Uma das ruas transversais à rua Tristão da Cunha é a rua Nuno Tristão. Por sinal, é nessa rua que mora a tia Didá.

Regressando ao setor ficcional, mas agora à escala doméstica, temos o Tristão da novela Espírito Indomável, que emparelha não com a Isolda mas com a Susana, certamente por lapso do argumentista. Os dois vivem uma escaldante história de amor, que rivaliza com a medieval e que manteve grudados à tvi milhões de portugueses durante meses a fio. Pedro Lima era Tristão e Sara Prata era Susana. Uma dupla inesquecível: http://www.youtube.com/watch?v=j9m6ryyUmHk.

Tristão: um nome alegre, ruidoso, operático mesmo, sobre o qual esvoaça um orgulhoso til, e que assenta perfeitamente ao nosso gaiato.

domingo, 6 de maio de 2012

Updates Barriguisticos

Aiiiii que ja recebemos muitas reclamacoes de falta de updates do status da barriga... Portanto, comecemos pelo mais importante: as fotos da crianca 'in belly':


Fica a progressao que assim ate e mais giro! A primeira foto mostra as 30 semanas, que comemoramos com uma ida a Lyon visitar a Marie, o Richard e o Jude. Chegamos la no Sabado e fomos muito bem recebidos pela familia da Marie que preparou um rico almocinho, a francesa, com saucisse e fromage e tudo e tudo! Depois passamos a tarde a passear e a comer gelados para aproveitar que estava calor! 



No Domingo esperamos que passasse a chuva de manha e fomos ate Fourviere, ver a catedral e a vista la de cima, que era bem bonita. Voltamos a tarde, uma viagem de 5 horinhas, mas que ate se fez muito bem, com direito a parar para comer gelados na area de servico (ate parecia Verao!) e fomos diretos ao restaurante Lisboa 2 no Luxemburgo jantar um rico arroz de marisco para fechar o fim-de-semana com chave de ouro! (e inda bem que tivemos um feriado na terca feira depois para recuperar disto tudo!)



E esta sexta-feira entramos nas 31 semanas, o que de acordo com o babycenter quer dizer que o Sebastiao ja deve medir os seus 40 cms! Esta semana tambem marcou o inicio do nosso curso de Hypnobirthing, e como tal agora passamos as noites a ouvir o nosso novo cd de relaxamento e self-hypnosis o que e um bocadinho esquisito, mas como ja dizia a Maya: nao negues a partida uma ciencia que desconheces. E aprender a respirar fundo tambem nunca fez mal a ninguem!

E este fim-de-semana marcou tambem o nosso primeiro dia da mae com o gaiato no horizonte! Ele nao desapontou e foi a Laduree comprar uns macarrons muiti xiques que nos vao saber muito bem ao almoco. 


E feliz dia da Mae tambem as Avos Lenita e Manel - mais uma semaninha e podemos dar os beijinhos todos em pessoa :-)

Beijinhos e abracos!

sábado, 5 de maio de 2012

Nome do dia: Sebastião

Nome do dia

Sebastião

Trata-se de um nome muito distinto, facilmente reconhecível: Sebastião em português, Sébastien em francês, Sebastián em espanhol, Sebastian em inglês. O inconveniente que representa o til no ditongo nasal é minorado pela presença dos acentos em francês e em espanhol. Quer dizer, podemos considerar que a existência de sinais diacríticos neste belo nome é uma tendência internacional, e que a versão portuguesa se limita a seguir essa tendência.

Sentimos imediatamente que é um nome que impõe respeito. Não admira, pois provém do grego “sevastos”, que significa precisamente “respeitável”, “venerando”, “ilustre”. Não é isto que nós desejamos para o gaiato?

Explicam-me os peritos gregos que geralmente consulto a propósito destas difíceis matérias que a palavra “sevastos” deriva do grego antigo “sevas”, que significa respeito, honra, e a terminação “atos” que exprime a ideia de “digno de”. Encontramos a mesma construção no nome da bela cidade ucraniana de Sebastopol, que corresponde o grego “sevasti polis”, significando “cidade honrada”.

O mais universalmente ilustre dos Sebastiões (até o gaiato crescer e disputar o lugar, é claro) é o João Sebastião Ribeiro, mais conhecido pelo seu nome em alemão, Johann Sebastian Bach, um dos maiores compositores de todos os tempos.


Uma das suas obras mais icónicas é a Tocata e Fuga em ré menor para órgão: http://www.youtube.com/watch?v=ATbMw6X3T40. Tenho a certeza de que o gaiato, ainda no berço, há de gostar muito desta fantástica peça, especialmente quando estiver de barriga cheia, depois de mamar. Para o ajudar a adormecer, recomendo estoutra, aqui na versão chillout, com saxofone:http://www.youtube.com/watch?v=0zpaPX_5hwo.

A presença de Bach na vida familiar do gaiato há de ser uma constante, e não só depois de mamar ou para o pôr a dormir. Quando a mãe quiser chamar para a mesa pai e filho, entretidos a ver um jogo do Sporting na SIC internacional, gritará: “João, Sebastião!”, assim trazendo à colação também o compositor.

No mundo musical, existe um outro João Sebastião relativamente famoso, se bem que eu suspeite que os pais do gaiato não o conheçam: estou a referir-me a John Sebastian o líder dos Lovin’ Spoonful, uma influente banda americana dos anos 60. Lembro-me dos Lovin’ Spoonful especialmente através do seu maior êxito, Summer in the City, uma canção rock fantástica. Oiçam: http://www.youtube.com/watch?v=s1_8909dNJ0. A versão do Joe Cocker também é muito boa: http://www.youtube.com/watch?v=6Hxz6qJi-9k.  

Em Portugal, o mais ilustre Sebastião é o Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal. O Marquês de Pombal foi o primeiro-ministro do rei D. José, desde 1750 até 1777, ano em que o rei morreu. A sua herança mais evidente para quem é de Lisboa, como os pais do gaiato, é a obra de reconstrução da cidade após o terramoto de 1755. Foi provavelmente ele que aprovou o projeto do prédio onde hoje mora a tia Di, e talvez devamos censurar-lhe ter-se esquecido de prever espaço para pelo menos um elevador. Descontando esse pequeno lapso, o Marquês de Pombal modernizou, com mão de ferro, Portugal, e também o Brasil. Em Portugal, além da reconstrução de Lisboa, instituiu a região demarcada dos vinhos do porto, aboliu a escravatura, reorganizou o exército e a marinha, reestruturou a Universidade de Coimbra, acabou com a discriminação dos cristãos-novos, fundou no Algarve Vila Real de Santo António, diminuiu o poder da Igreja, subordinando ao estado o tribunal do santo ofício, assim efetivamente desmantelando a inquisição. De passagem, expulsou os jesuítas da metrópole e das colónias (e com isso extinguiu a Universidade de Évora, que lhes pertencia) e limpou o sebo aos Távoras, acusados de um atentado contra a vida do rei.

Eis o famoso quadro que representa o Marquês de Pombal a fazer aquilo de que mais gostava: expulsar os jesuítas:


Quase duzentos anos antes de Carvalho e Melo, outro Sebastião ilustre quase deu cabo do país: o rei D. Sebastião, que em 1578 embarcou para o norte de África levando no seu exército a nata da nobreza portuguesa, arrastando a nação para o desastre de Alcácer Quibir. Em Lagos, de onde partiu a armada portuguesa para a fatal expedição, encontramos a célebre estátua de D. Sebastião, da autoria de João Cutileiro, que tão bem retrata o desvario, a imprudência e a megalomania do rei. 


Atualmente, o Sebastião mais popular em Portugal é o Sebastião dos Morangos com Açúcar, interpretado pelo jovem e promissor ator João Maria. Não, não se trata do pai do gaiato, que este anda ocupado a vender telemóveis no Luxemburgo, mas a coincidência é de assinalar, http://www.destak.pt/artigo/109359.

Menos popular do que o anterior, mas mesmo assim muito estimado, tivemos Sebastião da Gama, um poeta menor, mas não um pequeno poeta, também professor, cuja obra se encontra ligada à serra da Arrábida. Fundou em 1948 a Liga para a Proteção da Natureza, a mais antiga organização nacional de defesa do ambiente, como reação à destruição da mata do solitário, na serra da Árrábida, em resultado do “progresso”. A mata sobreviveu, como se pode constatar por meio desta interessante reportagem da RTP:http://tv1.rtp.pt/noticias/index.php?article=209355&tm=8&layout=122&visual=61.

Dos poemas de Sebastião da Gama, selecionei o seguinte “pequeno poema”, que vem muito a propósito, e que sei o gaiato decorará logo que aprenda a falar, para recitar à sua mãe no dia da mãe, que por coincidência acontece este ano precisamente à entrada no oitavo mês.

Pequeno poema


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...

Somente,
esquecida das dores,
a minha mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém... 

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha mãe...


Sebastião da Gama é recordado especialmente em Setúbal, onde a Escola Industrial e Comercial em que o avô materno do gaiato se iniciou nas lides educativas vai para quase quarenta anos se chama agora Escola Secundária Sebastião da Gama,http://pf2000.essg.pt/. Aliás, curiosamente, o Liceu de Oeiras onde o mesmo andou durante os sete anos da praxe chama-se agora Escola Secundária Sebastião e Silva, http://www.esss.edu.pt/, neste caso em homenagem ao matemático José Sebastião e Silva,http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p22.html.

Num capítulo completamente diferente temos São Sebastião. São Sebastião é um dos santos mártires mais “populares”, sem ser um santo popular (no sentido em que o são os seus colegas António, João e Pedro), venerado por católicos e ortodoxos. Ele terá sido vítima das perseguições que o imperador Diocleciano fazia aos cristãos. Aparece frequentemente representado amarrado a um poste com várias flechas trespassando o corpo. 




No entanto, é bom saber que essas flechas não lhe causaram a morte. Ele foi salvo por uma senhora, Irene de Milão, mas depois voltou dizer mal do imperador e então é que foi espancado brutalmente, a mando do imperador, que presumivelmente se fartou da impertinência do santo (que na altura ainda não tinha esse estatuto, bem entendido) e foi em consequência disso que morreu.

Em Lisboa, temos a freguesia de São Sebastião da Pedreira, a freguesia mais importante do país, que, graças à Maternidade Alfredo da Gosta, a qual está instalada no território da freguesia, é a naturalidade de mais de quatrocentos mil portugueses, número aproximado. É só fazer as contas: nascem para cima de 5000 bebés por anos na maternidade; a maternidade foi fundada há 80 anos; estou a admitir o que o número de partos se manteve à volta de 5000 desde o início, o que não pude confirmar… A esses quatrocentos mil há que acrescentar mais alguns, a saber, os que nasceram no Hospital Particular, ali perto, na avenida Luís Bívar, entre os quais se conta a mãe do gaiato, que não há de deixar de aproveitar esta oportunidade para afirmar, também ela, a sua naturalidade, agora mais valiosa ainda, dado estar a viver noutro país. Isto é tanto mais importante quanto é verdade que atualmente a freguesia corre o risco de desaparecer, por causa da dinâmica causada pelo projeto de diminuição do número de freguesias, sendo aglutinada com outras numa nova freguesia de “Avenidas Novas”, o que, convenhamos, é um nome bem velho e muito menos evocativo que o do santo. Acresce que São Sebastião é o único santo homem com direito a estação de metro, em Lisboa, juntamente com Santa Apolónia, no setor feminino:


São Sebastião é estação terminal da linha vermelha, a qual passa nas Olaias e em breve chegará ao aeroporto, no outro extremo. Desta forma, o gaiato, logo que chegar no voo do Luxemburgo, apanhará o metro na linha para São Sebastião e em dez minutos estará em casa da avó materna, deliciando-se com a tarte de morangos que ela terá à sua espera.

Note-se que se São Sebastião é o único santo com direito a estação de metro, não é o único Sebastião com essa prerrogativa, pois o Marquês de Pombal também tem uma estação. Esta dupla circunstância metropolitana é um indicador seguro da importância de se chamar Sebastião.

Sebastião: um nome ilustre para um ilustre gaiato!

Beijinhos

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Nome do dia: Raimundo

Nome do dia

Raimundo

Este é um nome de que toda a gente gosta. Há até uma famosa série televisiva chamada precisamente “Everybody loves Raymond”.

Não admira que gostem. Raimundo é um nome com uma sonoridade única, muito agradável e com muita personalidade. O áspero e forte ‘r’ inicial é imediatamente contrabalançado por um alegre e prazenteiro “ai”, ao qual se segue, num registo diametralmente oposto, um introspetivo “mun”, tudo terminando decrescentemente pelo suave, breve e quase sussurado “do”. Reparem que é uma palavra que requer uma grande ginástica facial, pois para dizer “rai” é preciso abrir bem a boca (já para não falar do gutural ‘r’, que muito exige da garganta) e para dizer “mun” é preciso fechá-la rapidamente, projetanto os lábios para a frente. Isto é um belo exercício vocal e o gaiato, ao aprender a dizer o seu nome, estará ao mesmo tempo a treinar-se para começar a articular palavras corretamente mais cedo do que os seu colegas de berçário.

O nome Raimundo é talvez o mais representativo da família dos nomes anglo-saxões terminados em “mundo”, da qual fazem parte outros interessantes nomes, como Edmundo, Segismundo, Faramundo, Osmundo, Blimundo (este agora muito popular na sua versão feminina, Blimunda, graças ao Memorial do Convento). O elemento “mundo” corresponde ao alto alemão “mund”, que significa “mão”, “ajuda” ou “proteção”. Portanto, todos aqueles nomes exprimem a ideia de proteção, o que é muito bonito. No nosso caso, Raimundo provém de Raginmund, onde o primeiro elemento “ragin”, tipicamente teutónico, significa “conselho” ou “justiça”, exprimindo também a ideia de sabedoria (a sabedoria que permite dar conselhos justos). Logo Raimundo é a mão da justiça ou a proteção da justiça, ou ainda aquele que protege a justiça. Qualquer um destes significados assenta como um luva ao nosso gaiato, que há de ser um homem justo e sábio e que saberá defender os mais desprotegidos.

Já agora, Edmundo é aquele que protege a riqueza, Segismundo, o que protege a vitória, Faramundo, o que protege a viagem (ou os viajantes), Blimundo, o que protege a felicidade. Quanto a Osmundo, parece querer transmitir a ideia de proteção divina. A propósito de Blimundo/Blimunda, não deixa de ser curioso, e muito significativo, que estes nomes de altíssimo valor literário nem sequer figurem na lista oficial dos vocábulos admitidos como nomes próprios, como aliás não figuram Faramundo, Osmundo e nem sequer o moderadamente popular Edmundo.

Paradoxalmente, mas em linha com os restantes nomes da mesma extirpe, o nome Raimundo é pouco usado em Portugal. No entanto, é popularíssimo em países mais próximos de nós como por exemplo em França, na forma Raymond, e nos Estados Unidos, onde o mesmo Raymond juntamente com as suas variantes ocupa a posição 36 na lista dos nomes masculinos mais populares. Em espanhol é o famoso Ramón, que nós confundimos ao pronunciar com jámon, mas é claro que são coisas diferentes…

Aliás, por influência da versão castelhana, o nosso Raimundo tornar-se-á fã da marcante banda de rock punk dos anos 70, 80 e 90, que tem o seu nome: os Ramones. Talvez o pai do gaiato não estivesse a par, mas perante esta pérola, vai envergonhar-se de não ter selecionado os Ramones para a banda sonora do dia 10 de setembro de 2011:http://www.youtube.com/watch?v=l4H9yZBjgSI.

A França é talvez o país dos Raimundos. Restringindo-nos ao século XX, temos dois famosos desportistas Raymond: o Poulidor e o Kopa (pronunciar Kopa com as duas vogais abertas). O Poulidor foi um ciclista famoso, dos anos 60 e 70, querido de todos os franceses, e não só, que ficou conhecido por “o eterno segundo”. De facto, ficou quatro vezes em segundo lugar na volta à França, que nunca conseguiu ganhar, e onde nunca vestiu a camisola amarela. É o ciclista que mais vezes subiu ao pódio no fim do Tour, juntamente com Lance Armstrong: oito vezes. Só que o Armstrong ganhou em sete dessas oito… Não obstante, o Poulidor é um símbolo. Lembro-me bem da angústia coletiva, a cada volta a França, para ver se era desta que o Poulidor ganhava. Nunca aconteceu. Faz jus à máxima “a tragédia de um homem não é perder: é quase ganhar.” Não ganhou a volta à França, mas ganhou muitas outras corridas, claro, e continua a ser uma referência, http://fr.wikipedia.org/wiki/Raymond_Poulidor.

Se em Portugal temos o Eusébio, o Figo e o Cristiano Ronaldo, em França (e os pais do gaiato, que moram lá perto podem confirmar) eles têm o Kopa, o Platini e o Zidane. O Kopa jogou primeiro do Stade de Reims, que, na altura, e estamos a falar dos anos 50, era a melhor equipa francesa, e depois, durante três épocas, no Real Madrid, equipa pela qual venceu três vezes a taça dos campeões europeus, em 1957, 1958 e 1959. No Real Madrid foi companheiro do Di Stéfano e do Puskas, duas outras lendas do futebol mundial. Kopa venceu também a taça latina em 1957,  pelo Real Madrid, frente ao Benfica, num jogo ainda hoje recordado com amargura pelos benfiquistas empedernidos. Foi também considerado um dos melhor jogadores do mundial de 1958, na Suécia, fazendo parte do All-Star team desse campeonato, http://en.wikipedia.org/wiki/FIFA_World_Cup_awards#All-Star_Team. Foi nesse mundial que se estreou, na seleção brasileira, um rapazito de 17 anos chamado Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido por Pelé.

No setor da relojoaria, e ali ao lado da França, na Suíça, temos o Raymond Weil, http://www.raymond-weil.com/. Esta circunstância facilita muito a tarefa de encontrar prendas para o gaiato: basta escolher um relógio Raymond Weil. Não são muitos os que podem gabar-se de ter no pulso um relógio com o seu nome. Para mim, que não me chamo Raimundo, pode ser este:

Do outro lado do Atlântico, também há muitos Raymonds. Um dos primeiros que eu conheci foi o Raymond Burr,http://en.wikipedia.org/wiki/Raymond_Burr, isto é, Perry Mason, http://en.wikipedia.org/wiki/Perry_Mason_(TV_series). Por pouco, eu próprio não fui para advogado, para ser como o Perry Mason e ter uma secretária como a Della Street. Quem nunca viu, pode recorrer à Amazon, começando pela primeira série, de 1957, http://www.amazon.com/Perry-Mason-Season-One-Vol/dp/B000F48D0Uu.


Ainda no mundo do crime, temos Raymond Chandler, escritor de livros policiais, criador do famoso detetive Philip Marlowe, imortalizado por Humphrey Bogart, não sem a ajuda da Lauren Bacall, no filme de 1946, “The Big Sleep”, ou, em português, “À beira do abismo. Watch the trailer: http://www.youtube.com/watch?v=VjJlBnfyiI4. Na verdade, nos primeiros tempos, Chandler foi um escritor de “pulp fiction”, um género de histórias publicadas em revistas baratas, que usavam papel de baixa qualidade (“pulp”, tal como na expressão “polpa de papel”, presumo), e inspirou-se precisamente nos livros de Earl Stanley Gardner, o autor das histórias do Perry Mason. A primeira obra profissional do Chandler foi publicada no Black Mask, uma revista “pulp”:




Recordemos, até para fazer a ligação para o próximo Raimundo, o célebre adágio de Philip Marlowe, que tinha queda para filosofar, certamente proferido num momento de desânimo após algum desaire amoroso, mas que não pode ser tomado à letra: “a woman will lie about anything, just to stay in practice”. Percebe-se a ideia, mas felizmente nem todas as mulheres são assim, como o nosso gaiato comprovará, em devido tempo.

Continuando no mundo do cinema, temos o conhecido ator Ray Liotta, de seu nome completo Raymond Allen Liotta, que é da família da Amelinha, pelo menos conhecido lado do pai, e que no divertido filme “Selvagem e Perigosa”, compõe o personagem Ray Sinclair (presumivelmente também Raimundo, portanto), psicopata, ex-marido da Melanie Griffith, que torna deveras infernal a aventura do pobre Jeff Daniels. Watch the trailer: http://www.imdb.com/video/screenplay/vi2091162905/. Mesmo assim, esperamos que o nosso Raimundo, quando chegar à altura de arranjar namorada, arranje uma a quem se possa aplicar a famosa tirada deste seu homónimo ator e personagem, neste caso dirigindo-se ao Jeff Daniels, que no filme era o Charlie, a propósito, bem entendido, da personagem da Melanie Griffith: “Charlie, you gotta fight for a woman like this.” E note-se que no filme a personagem da Melanie Griffith é um caso em que o adágio do Marlowe se aplica na perfeição.

Regressando ao rock, encontramos Raymond Daniel Manzarek, que usou o nome artístico Ray Manzarek, e que foi o teclista dos Doors, http://en.wikipedia.org/wiki/Ray_Manzarek. Uma das canções mais icónicas dos Doors, Light my fire, tem uma entrada memorável de órgão eletrónico pelo Ray Manzarek, que todos reconhecemos instantaneamente, mesmo os que ainda não eram nascidos nessa época fascinante de que os Doors são um elemento essencial: http://www.youtube.com/watch?v=iGQwAA3I-eQ.

No campo ficcional, existe um importante Raimundo na literatura de língua portuguesa e, mais do que isso, na telenovelística lusófona. Trata-se de Raimundo Falcão, mais conhecido por Mundinho Falcão, personagem central no romance de Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela, e da correspondente novela Gabriela, http://www.youtube.com/watch?v=FBvUILjCSSc.

Esta novela Gabriela foi produzida no Brasil em 1975 e passou em Portugal em 1977. Foi um tremendo sucesso entre nós, e ainda hoje os que a viram a recordam com saudade. Os quatro personagens principais eram a atrevida cabocla Gabriela, interpretada por Sónia Braga, http://www.youtube.com/watch?v=o5MkXHTRexw´, o retrógrado cacique local, coronel Ramiro Bastos, interpretado por Paulo Gracindo, o bem-disposto “seu” Nacib, proprietário do bar Vesúvio, parceiro da bela Gabriela, interpretado por Armando Bógus e o nosso Mundinho Falcão, empresário exportador cacau, símbolo do progresso (em oposição ao coronel Ramiro), interpretado por José Wilker. http://www.youtube.com/watch?v=qx6_cWMSUic.

Portanto, Mundinho é o símbolo do progresso numa sociedade meio acomodada. É gente assim que faz falta!

Quem não viu, pode esperar mais um pouco e ver a nova versão, certamente a cores e em HD, que a Globo está a preparar lá mais para o fim do ano. No papel de Gabriela teremos a Juliana Paes, que não fica a dever nada à Sónia Braga, http://revistaquem.globo.com/Revista/Quem/0,,EMI284010-9531,00.html.

Se estes Raimundos têm alguma importância nas nossas vidas, o Raimundo mais importante mesmo é de uma outra época, mas também veio de França, como o Poulidor e o Kopa: é Raimundo de Borgonha, tio de D. Afonso Henriques, a quem devemos, ainda que indiretamente, a nossa identidade nacional.




Raimundo de Borgonha nasceu em 1059 e era filho de Guilherme I, conde da Borgonha. Dois dos seus irmãos, Reinaldo (Renaud) e Estêvão (Etienne), foram condes de Borgonha, sucedendo o primeiro ao pai e o segundo ao primeiro. Morreram ambos nas cruzadas. O terceiro irmão, Gui, foi papa entre 1119 e 1124, com o nome de Calixto II. Gente fina, portanto. Raimundo, rapaz mais sensato, em vez de ir para as cruzadas, veio para península ibérica, mas também para combater infiéis, acompanhando o duque da Borgonha, Odo I, que em 1086 veio ajudar na reconquista. Atenção: não confundamos os duques e os condes. Há os duques da Borgonha e os condes da Borgonha. São todos da Borgonha, mas, segundo entendi, os condes prestavam vassalagem aos duques. Faz sentido, portanto que Raimundo acompanhasse Odo e não o contrário. Quatro anos mais tarde, em 1090, Raimundo regressa e traz o primo Henrique, irmão mais novo de Odo. Nessa altura, Raimundo tinha 31 anos e Henrique 21. Apesar de Henrique ser filho do herdeiro do ducado (herdeiro esse que morreu antes de herdar), era um dos filhos mais novos e não tinha hipóteses de fazer carreira na Borgonha. Assim se compreende (digo eu…) que tenha vindo com o primo mais experiente, tentar a sorte por estes lados, certamente bem mais aprazíveis do que a hostil Palestina, que, não obstante, estava muito na moda naqueles recuados tempos.

Pouco depois de chegar, Raimundo casa com a filha do rei Afonso VI, de Castela e Leão. É sinal de que se deve ter portado bem, durante a primeira visita, quatro anos antes. Em 1093, é a vez de Henrique se casar, agora com a filha bastarda do rei Afonso VI, Teresa, que na altura tinha só 13 anos, enquanto Henrique ia nos 24. Aparentemente, o rei estaria muito grato a Henrique, pelos seus bons serviços contra os mouros. O resto da história já nós sabemos: Raimundo ficou com a Galiza, Henrique com Portucale, o filho do primeiro, Afonso Raimundes, tornou-se o rei Afonso VII de Castela e Leão, o filho do segundo, Afonso Henriques, chateou-se com a mãe, guerreou com o primo Raimundes (todos nos recordamos daquela cena em 1127, com Egas Moniz, aio de Afonso Henriques a convencer Afonso VII de que não era nada e que Afonso Henriques lhe continuaria leal) e transformou o condado de Portucale no reino de Portugal. Fast-forward até 2012, 901 anos após o nascimento de Afonso Henrique e aqui estamos nós, sempre em crise. Note-se que Afonso Raimundes e Afonso Henriques eram primos muito próximos, pois as mães eram meias-irmãs e os pais eram primos. Raimundes nasceu em 1104 e Henriques em 1111. Portanto, na cena do Egas Moniz com a corda ao pescoço, o rei de Castela e Leão tinha 23 anos e o seu primo mal comportado tinha 17. Tudo coisas de miúdos, portanto. Não admira que tenha dado no que deu. Não admira que o Afonso Henriques fosse um revoltado: o tio era mais influente do que o pai; a tia era uma celebridade mais importante do que a mãe, o primo mais velho era rei e sobrinho de um papa: como é que Afonso Henriques se havia de contentar apenas com um condadozito? Para uma cronologia dos acontecimentos, veja-se http://www.portugal-info.com/historia/segundo-condado.htm.

Raimundo: um nome fantástico, que explica tudo!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Nome do dia: Quetzalcóatl

Nome do dia

Quetzalcóatl

Aqueles de nós mais viajados reconhecerão instantaneamente das suas peregrinações mexicanas este belíssimo e melodioso nome, nitidamente formado por dois elementos provenientes da bonita língua náhuatl: quetzal e coátl. A palavra quetzal significa “pena” (como em “pena” de ave) e a palavra “cóatl” siginifica serpente. Logo “quetzalcóatl” é a serpente plumada:




Na verdade, Quetzalcóatl é o nome de um poderoso deus asteca: deus do vento, do nascer do sol, dos mercadores, dos artistas e, sobretudo, do conhecimento. Logo, com este nome, o gaiato está no bom caminho. É verdade, que sendo um nome pagão, o padre que o batizará pode torcer o nariz, ao que os pais replicarão que a tradição de nomes pagãos já há muito corre na família: veja-se o caso da tia Di.

O único inconveniente do nome é, reconheçamo-lo, o acento no ‘o’, para assinalar a sílaba tónica. Aliás, a pronúncia correta do nome é assunto de aceso debate e há até quem defenda que é impossível pronunciar. Os mais puristas quererão dizê-lo como os astecas, o que parece difícil, porque a língua náhuatl tem sons estranhos para nós, mas, no fim de contas, pronuncia-se como se escreve, tal como podemos confirmar em http://www.forvo.com/word/quetzalcoatl/.

Tratando-se um nome polissilábico, vem equipado com um bem ternurento diminutivo, Kétzi, que soa ainda melhor se dito repetidamente: kétzi-kétzi-kétzi. A mãe, as avós e as tias hão de querer tratá-lo assim, o que poderá tornar-se enjoativo, é verdade, mas confiamos que o pai, quando não tiver tempo para o chamar com as letras todas, recorrerá ao mais sintético mas muito efetivo “Ké”, que, por sinal, rima com “Zé”, nome do avô paterno.

Se o nome não for aceite pacificamente pelas autoridades luxemburguesas, com a desculpa esfarrapada que não é um nome tipicamente luxemburguês, os pais deverão invocar o importante ramo mexicano da família, o do tio-tataravô Vicente Guerrero, bravo lutador independentista e segundo presidente do México (ainda que só por alguns meses), filho de Pedro Guerrero e de Maria Guadalupe Saldanha, cujo nome de família foi usado para batizar um dos estados dos Estados Unidos Mexicanos, precisamente o estado de Guerrero, onde aliás Vicente Guerrero nasceu e onde se situa um dos mais requisitados destinos turísticos da zona, a bonita cidade de Acapulco. Logo, se o tio-tataravô é mexicano, torna-se legítimo utilizar para o gaiato um nome na mais pura tradição asteca.

O nome Quetzalcóatl, ainda que estranho, é muito bem estruturado. O primeiro elemento é quetzal, que, como vimos, significa pena na antiga língua náhuatl, mas também é o nome de um interessante pássaro da América Central:



O quetzal tem entre outras particularidades a de morrer se for aprisionado. Por isso, é com muita justeza considerado um símbolo da liberdade. O gaiato não se há de esquecer disso nunca, para mais trazendo o quetzal no seu nome.

O segundo elemento do quetzalcóatl é cóatl, que significa serpente, como vimos, mas que também encontramos em xocoatl. Ora xocoatl era a bebida dos astecas que os espanhóis trouxeram para a Europa e que acabou por evoluir para aquilo que hoje chamamos chocolate. Se não podemos viver sem liberdade, também é verdade que viver sem chocolate fica deveras desagradável. O gaiato há-de apreciar isso e talvez adote como divisa: “liberdade e chocolate”.

No entanto, não devemos induzi-lo em erro: o coatl de xocoatl não é o cóatl de quetzalcóatl. Com efeito, os elementos de xocoatl são xoco e atl e não xo e cóatl. Ora xoco significa amargo e atl significa água. Logo, paradoxalmente, chocolate para os astecas era uma água amarga. É verdade: originalmente o chocolate era uma espécie de droga, que devia saber bastante mal, e foram os europeus que tiveram a bela ideia de lhe juntar açúcar e leite, assim criando essa maravilha culinária.

O quetzal é também a moeda da Guatemala. Isso faz de Quetzalcóatl um membro do seleto clube dos nomes próprios também associados a nomes de moedas, como as extintas franco e marco. Quem sabe se isso não prenuncia que o rapaz há de fazer fortuna, talvez no negócio dos chocolates. Não nos espantaria se tal acontecesse, pois o pai também fez uma brilhante carreira no mundo dos lacticínios antes de enveredar pelas telecomunicações móveis.



Em Portugal, Quetzal é também nome de vinho, o vinho produzido na Quinta do Quetzal, concelho da Vidigueira. Nunca bebi, mas tenho a certeza de que é muito bom, e espero beber muitas vezes, mas sempre com moderação, à saúde do nosso Quetzalcóatl.


Finalmente, temos o quetzalcoatlus, um dos mais temíveis pterossauros, com a sua espantosa envergadura que chegava a mais de 10 metros:



O quetzalcoatlus é um dos maiores animais voadores de todos os tempos. Que pena estar extinto! Conhecendo nós a atração que os miúdos têm pelos animais jurássicos e cretácicos, é óbvio que o nosso gaiato adorará ter nome de dinossauro. Porquê negar-lhe esse pequeno orgulho e esse grande prazer?

Beijinhos